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O lugar da Paz

De nada serve a Portugal ser o terceiro país mais seguro do mundo, se vivemos no planeta mais inseguro do Universo. Não é vitória que se cante.

Eu até já tinha alinhavadas umas quadras ao gosto dos santos populares e ia para a rua marchá-las de manjerico na mão.

“Lá vais Portugal/
és quase o primeiro/
país mais seguro/
do mundo inteiro//

Tirando vulcões/
esquecendo carneiros/
nas Informações/
somos os primeiros”.

Mas não. A minha alegria ficou contaminada pelo clima. O Trump pirava-se em Paris. O mundo ia enegrecer.

Achava mesmo que não ia voltar a falar de Trump, sobretudo depois de o ter comparado ao Bruno de Carvalho, mas o homem consegue-me fazer descer sempre mais baixo.

Foi assim que, na mesma semana em que Portugal subiu ao terceiro lugar do Índice Global da Paz, ficámos igualmente a saber que o nosso planeta Terra vai descer para último no Índice de Viabilidade dos Planetas. Ordens da América.

O Índice Global da Paz é um projeto do Instituto da Economia e Paz, sedeado em Sydney na Austrália e que, desde 2007, classifica os países independentes pela sua “ausência de violência”. É um índice composto por 22 indicadores que vão desde o nível de gastos militares de uma nação até às suas relações com países vizinhos e ao nível de respeito pelos direitos humanos. Assenta numa série de fatores que são determinantes para a paz, como os níveis de democracia e transparência, de educação e de bem-estar. A equipa que colocou Portugal no pódio dos mais pacíficos usou como dados os últimos números disponíveis das mais respeitadas fontes de informação mundiais como são o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o Banco Mundial, muitos departamentos da ONU e Institutos de Paz e a unidade de Inteligência da revista The Economist.

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Esta não era a fantasia rebuscada de um cérebro de criança, ou um delírio de adolescente. Eu já tinha visto centenas de paisagens semelhantes em casa de amigos durante o mês de dezembro. À época da minha infância, praticamente todos em Portugal montavam na sala lá de casa um grande presépio católico.

Às vezes ainda tenho saudades desses cenários mágicos onde os meus olhos se deslumbravam pelo fascínio do Natal, mas acredito, apesar da nostalgia, que os natais de agora, mesmo com presépios virtuais, trazem às crianças mais conforto e confiança no futuro.

Estas representações do nascimento de Jesus são uma tradição centenária no mundo católico. Uma narrativa simples e poderosa, largamente difundida, e que, para ser contada, precisa de apenas meia dúzia de linhas. São poucos os elementos necessários. As três figuras básicas: Virgem Maria, José e o menino Jesus; os três reis magos e a estrela que os guiou ao recém-nascido. Hélas!

Mas só isto? Porque nos havemos de limitar? Como o presépio original era impreciso – a fotografia ainda demoraria a ser inventada – a narrativa oficial da Igreja Católica permitiu, às vezes até fomentou, derivas iconoclastas que vão desde mudar a raça dos reis magos até à aparição de seres imaginários capazes de envergonhar a imaginação dos escritores hiper-realistas da América do Sul.

No México, por exemplo, os presépios podem transformar-se em extravagâncias elaboradas, preenchidos por todo o tipo de animais e plantas, coisas que são impossíveis de encontrar lado a lado no Mundo real. Alguns exibem rios que funcionam com bombas de água, outros cascatas e lagoas que correm para o ar. Há até cidades inteiras construídas em torno da manjedoura onde Jesus nasceu. A liberdade criativa estende-se também aos personagens, que vão desde figuras bíblicas não relacionadas, como Adão e Eva, até pastores aleatórios, fazendeiros, o Diabo e mesmo fabricantes de tortilhas.

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