Read More

O Manuel Alegre e o Pereira triste

Esta semana Manuel Alegre ganhou o prémio Camões. Parabéns! Aos oitenta e um anos o político militante, escritor de rasgo, poeta de génio, estava finalmente no seu posto. Onde a história o há de guardar. […]

Read More

Obrigado pelo lume

O Livro de Areia  disputa com a Biblioteca de Babel e os fragmentos narrativos  de Valery a impaciência matemática deste texto. Foi numa esplanada de junho, num sol desmaiado perto do solstício que te encontrei. Afinal a Vénus […]

Read More

A nova era do Terror

Digo muitas vezes que é a internet que nos vai proteger da guerra com os nossos vizinhos. Simplificando uma argumentação mais complexa, a minha tese consiste numa crença simples: aos humanos é-lhes tão fácil odiar […]

Read More

O lugar da Paz

De nada serve a Portugal ser o terceiro país mais seguro do mundo, se vivemos no planeta mais inseguro do Universo. Não é vitória que se cante.

Eu até já tinha alinhavadas umas quadras ao gosto dos santos populares e ia para a rua marchá-las de manjerico na mão.

“Lá vais Portugal/
és quase o primeiro/
país mais seguro/
do mundo inteiro//

Tirando vulcões/
esquecendo carneiros/
nas Informações/
somos os primeiros”.

Mas não. A minha alegria ficou contaminada pelo clima. O Trump pirava-se em Paris. O mundo ia enegrecer.

Achava mesmo que não ia voltar a falar de Trump, sobretudo depois de o ter comparado ao Bruno de Carvalho, mas o homem consegue-me fazer descer sempre mais baixo.

Foi assim que, na mesma semana em que Portugal subiu ao terceiro lugar do Índice Global da Paz, ficámos igualmente a saber que o nosso planeta Terra vai descer para último no Índice de Viabilidade dos Planetas. Ordens da América.

O Índice Global da Paz é um projeto do Instituto da Economia e Paz, sedeado em Sydney na Austrália e que, desde 2007, classifica os países independentes pela sua “ausência de violência”. É um índice composto por 22 indicadores que vão desde o nível de gastos militares de uma nação até às suas relações com países vizinhos e ao nível de respeito pelos direitos humanos. Assenta numa série de fatores que são determinantes para a paz, como os níveis de democracia e transparência, de educação e de bem-estar. A equipa que colocou Portugal no pódio dos mais pacíficos usou como dados os últimos números disponíveis das mais respeitadas fontes de informação mundiais como são o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o Banco Mundial, muitos departamentos da ONU e Institutos de Paz e a unidade de Inteligência da revista The Economist.

Read More

O Pesadelo de Bolívar

A Venezuela é um destino de emigração tradicional para os portugueses. Tudo o que de mau lá acontecer impactará de forma violenta a nossa comunidade naquele país sul americano. Há uma década, o secretário de […]

Read More

O Bruno de Carvalho da América

Hoje, o título era para ser “Trump, o Louco”, mas ontem, no Expresso, o Miguel Sousa Tavares “roubou-mo”. Assim sendo, socorro-me de uma comparação que, se virmos bem, não é assim tão disparatada. Os dois […]

Read More

Oitenta por cento é sorte!

Quando fiz o PADE na AESE (2010, curso XXXV), numa das sessões, já não lembro bem qual, o professor Raul Diniz disse uma coisa desconcertante: na vida, oitenta por cento de tudo é sorte! Quase […]

Read More

Podre poder

A premiada jornalista brasileira, Eliane Trindade, escreveu na Folha de São Paulo uma reportagem extraordinária. Eliane entrevistou, sob anonimato, uma acompanhante brasiliense – moça de programa, como se diz lá, prostituta de luxo, como se […]

Read More

O regresso da guerra

O silêncio corre atrás do tempo como os mísseis voam à frente das palavras. Finalmente o urso acordou e mostrou ao mundo que o palhaço ruivo é apenas palhaço quando é uma figura de estilo; […]

Read More
Para Inglês ver

Portugal para inglês ver

Vivemos um novo tempo de descobertas. A circunstância geográfica de Portugal que – com exceção da época dos descobrimentos – sempre nos penalizou, é de novo uma vantagem competitiva. A matéria prima para o nosso […]

"Que se o facundo Ulisses escapou De ser na Ogígia ilha eterno escravo, E se Antenor os seios penetrou Ilíricos e a fonte de Timavo; E se o piedoso Eneias navegou De Cila e de Caríbdis o mar bravo, Os vossos, mores cousas atentando, Novos mundos ao mundo irão mostrando."
Lusíadas Luís de Camões
[x_subscribe form="2900"]
 
Existe claramente uma relação directa entre a evolução das tendências dos preços das matérias-primas e do comércio. Dado que esta conexão afecta todos os produtos manufacturados que exigem matérias-primas, não deve ser nenhuma surpresa que, à medida que os preços das matérias-primas caem, o mesmo aconteça com o comércio global.
A China anunciou que, no ano passado, pela primeira vez desde que começou a abrir a sua economia para o mundo no final da década de 1970, as exportações caíram, em termos anuais. E isso não é tudo; em termos de valor, o comércio global diminuiu em 2015. A pergunta óbvia é: porquê? Ainda que o comércio global também tenha caído em 2009, a explicação foi óbvia: o mundo enfrentava uma forte contração do PIB naquela altura. No ano passado, contudo, a economia mundial cresceu uns respeitáveis 3%. Além disso, as barreiras comerciais não aumentaram significativamente em lado nenhum, e os custos de transporte estão a diminuir, devido ao forte declínio dos preços do petróleo. [x_subscribe form="2900"] O chamado Baltic Dry Index, que mede o custo de fretar os navios de grande porte que transportam a maior parte do comércio de longa distância, caiu para um mínimo histórico. Isso indica que os mercados não esperam uma recuperação, o que significa que os dados de 2015 poderão anunciar uma nova era de desaceleração do comércio. A conclusão óbvia é que as forças da globalização, outrora irresistíveis, estão a perder força. A situação na China é reveladora. Nas últimas décadas, a China tornou-se a potência comercial mais importante do mundo e transformou o sistema de comércio global. Agora, o valor das importações e das exportações caiu devido à descida dos preços das matérias-primas. Na verdade, os preços das matérias-primas são a chave para compreender a evolução do comércio ao longo das últimas décadas. Quando os preços estavam elevados, conduziram a uma intensificação do comércio – a tal ponto que o peso do comércio no PIB aumentou - alimentando a propaganda sobre o progresso inevitável da globalização. Mas em 2012, os preços das matérias-primas começaram a cair, arrastando o comércio com eles. Assumamos que é preciso uma tonelada de aço e dez barris de petróleo para produzir um automóvel. Em 2002-2003, este lote de matérias-primas valia cerca de 800 dólares, ou 5% do valor do carro, que custava 16 mil dólares. Isto implica que, nos anos 2000, os países industrializados tinham que exportar cinco automóveis por cada cem lotes de matérias-primas que importavam. Em 2012-2013, o valor das matérias-primas necessárias para fazer um carro aumentou para cerca de 2 mil dólares, aproximadamente 10% do seu preço (o preço dos automóveis subiu muito menos). Os países industrializados tinham, assim, que exportar o dobro, ou seja, dez carros, para a mesma quantidade de matérias-primas importadas. Existe claramente uma relação directa entre a evolução das tendências dos preços das matérias-primas e do comércio. Dado que esta conexão afecta todos os produtos manufacturados que exigem matérias-primas, não deve ser nenhuma surpresa que, à medida que os preços das matérias-primas caem, o mesmo aconteça com o comércio global. É possível argumentar que este exemplo se refere apenas ao valor do comércio e que, nas últimas décadas, o crescimento do comércio, em termos de volume, também superou o crescimento do PIB real. Mas os preços das matérias-primas também afectam os volumes de comércio, já que os preços mais elevados das matérias-primas forçam os países industrializados a aumentar o volume das suas exportações (dez carros em vez de cinco, como no exemplo acima) para cobrir os custos do mesmo volume de importações de matérias-primas. Dado que os alimentos, combustíveis e matérias-primas representam cerca de um quarto do comércio global, quando os preços flutuam - especialmente de forma tão acentuada como nas últimas décadas – os dados agregados do comércio são, obviamente, afectados. Perante a queda acentuada dos preços das matérias-primas nos últimos tempos, não há necessidade de procurar qualquer outra explicação para a recente desaceleração do comércio. Isso não quer dizer que a globalização e o comércio sejam uma e a mesma coisa. A globalização implica muitas outras características, incluindo o aumento das transações financeiras transfronteiriças e o turismo, o intercâmbio de dados e outras actividades económicas. Na verdade, essas outras interligações tiveram reflexo no comércio, uma vez que permitiram o surgimento de cadeias de valor globais, que fazem com que diferentes etapas do processo de produção ocorram em diferentes países. No entanto, este fenómeno tem sido sobrestimado. De acordo com a Organização Mundial do Comércio, o valor acrescentado externo contido nas exportações é de apenas 15% para a maioria das grandes economias, como os Estados Unidos e a União Europeia. Por outras palavras, as cadeias de valor globais têm pouco impacto nestas grandes economias comerciais. A China é a única excepção. A sua posição como uma plataforma de montagem para produtos de todo o mundo significava que o país importava a maioria dos elementos de maior valor agregado desses bens. Mas à medida que a estrutura industrial do país amadurece – os iPhones montados na China contêm agora mais peças de fabrico chinês do que há uns anos – a China vai-se aproximar mais dos Estados Unidos e da União Europeia, em termos de valor agregado, e não o contrário. Esta é mais uma razão pela qual o comércio pode diminuir em importância. Quando uma coisa é amplamente publicitada, há quase sempre uma razão verdadeira para isso. A maioria das economias estão mais abertas hoje do que há uma geração. Mas está a tornar-se evidente que a percepção de que a globalização é uma força esmagadora e inexorável reflectiu, em grande medida, os efeitos colaterais do "boom" das matérias-primas da última década. Se os preços continuarem baixos, como parece provável, a próxima década poderá ser de estagnação para o comércio global, com o padrão a "reequilibrar-se" das economias emergentes para as potências industriais estabelecidas.
Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus.
Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016. Tradução: Rita Faria IN:Jornal de Negócios