O rei do Pão de Açúcar

Foi num almoço fantástico e inesperado no Consulado Geral de Portugal no Rio de Janeiro que esta história me encontrou. No salão principal do palácio de São Clemente em Botafogo, mandado fazer pelo ditador Salazar, à moda do século XVIII, para servir de Embaixada a Portugal, uma tela de grandes dimensões convoca de imediato a atenção do olhar.

Sob o olhar atento de Minerva, D. João VI, em traje de aparato, sentado, fita de soslaio com um olhar penetrante, os que o observam. Atrás da estátua da deusa das artes, do comércio e da sabedoria, uma janela abre-se sobre o Terreiro do Paço.

Foi a arte de Domenico Pellegrini, o pintor do Veneto italiano que até hoje melhor compreendeu a beleza difícil João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança, Rei de Portugal e dos Algarves e Imperador do Brasil.

O quadro mostra a imponência do primeiro e único rei Tropical da Europa e acompanhou o monarca naquela viagem para o sul que deixou Napoleão Bonaparte, vermelho de raiva pelo facto de não conseguir ser sobreano em todas as capitais europeias. Desde 1808 que a capital de Portugal não era Lisboa, mas sim o Rio de Janeiro.

Por isto mesmo talvez fizesse sentido dar um novo enquadramento ao quadro do mestre italiano. Foi exatamente o que fez António Alves, um carioca pardo, que replicou a obra de Pellegrini, substituindo a Praça do Império pelo novo símbolo da capital lusa: o Pão de Açúcar.

Só que esse quadro nunca foi exposto. Perdeu-se no labirinto das revoluções e só no ano passado voltou à superfície, para ser a “estrela” da exposição sobre retratos de D. João VI que o Instituto Brasileiro dos Museus preparou, em conjunto com Portugal sob os auspícios do Cônsul Geral de Portugal no Rio de Janeiro, Jaime Van Zeller Leitão e do Instituto Camões.

O que poucos sabem é que esse quadro do Rei Tropical, mesmo sem nunca ser visto, salvou a vida do seu autor. Alves, adepto dos revoltosos do Pernambuco, acusado de retratar revolucionários e lhes desenhar a bandeira. enfrentava a pena capital. Mas quando foi capturado abraçou-se ao quadro do Rei Português, reclamando a sua autoria, o que lhe salvou a vida.

Os dois quadros, anunciados pela primeira vez juntos, na exposição Retratos do Rei, que aconteceu no Museu Histórico Nacional, faziam parte de um plano secreto para aproximar Portugal e o Brasil, onde Minerva, o Pão de Açúcar e o Terreiro do Paço, como cumprindo uma profecia histórica, ficariam juntos pela primeira vez, quase dois séculos depois.

Quem olhar com atenção o que hoje acontece entre os dois povos — Portugal e o Brasil — percebe eles se juntam de novo, num momento histórico que só não é mais falado porque acontece no presente. Nada acontece por acaso.


Publicado originalmente na Revista IstoÉ a 18 de outubro de 2019