Ser bom aluno não chega

Passos Coelho diz em voz alta que a estratégia grega é má. Mas a verdade é que dá mais resultados que a nossa. Com o ultimato do Conselho Europeu ao Governo da Grécia – obrigando-o a continuar a cumprir as regras que estavam em vigor no programa de assistência da troika durante mais uma temporada – Passos Coelho deve ter-se sentido vingado dos apupos de que foi alvo por ter dito que as pretensões dos governantes do Syriza são “uma brincadeira de crianças”.

Vale a pena recordar o que os gregos queriam: pagar o que devem (ainda que) durante mais tempo; ter um novo empréstimo para dinamizar a economia, a ser pago com taxas de juro indexadas ao desempenho da economia; e gastar em 2015 mais 12 mil milhões de euros do que está previsto, para fazerem coisas como recontratar funcionários públicos, dar eletricidade grátis aos mais pobres, reabrir a estação de televisão pública ou aumentar o salário mínimo dos atuais 550 euros, impostos pela troika, para os antigos 750 euros.

Como isto não foi aceite pelo FMI nem pelos governos da União Europeia (UE), Passos Coelho acha que se vai provar a sua tese. Talvez se engane.

Vejamos. A estratégia grega de confrontar a UE com a responsabilidade dos seus próprios (dos gregos) erros tem resultado: a Grécia paga à troika juros de 3% (contra os 5,5% pagos por Portugal, por exemplo) e tem maturidades mais longas para amortizar as suas dívidas. Ou seja: subir a parada, desafiar a Alemanha (que é quem tem ganho mais com esta crise), falar alto, em suma, resulta.

Ou seja: como o ex-bastonário da Ordem dos Médicos Gentil Martins titula o seu último livro, referindo-se obviamente a Passos Coelho, “Ser bom aluno não chega”.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 18 de fevereiro de 2015