Perto da vista, longe do coração

Com a ajuda da Tap e da internet, mas sobretudo por estratégia própria, Marrocos vai deixando de ser apenas sinónimo de um destino turístico mais ou menos exótico para ser, cada vez mais, um território de proximidade.

Três sargos, dúzia e meia de sardinhas – peixe fresquinho – quatro saladas de tomate, pão, azeitonas e água. “Almoço para quatro, preço: 12 euros. Servido na praia, na areia, ali a três metros das águas calmas do atlântico.”

Onde se pode encontrar tanto por tão pouco? Em Dar-Bouazza. Uma vila de pescadores vinte quilómetros a sul de Casablanca, em Marrocos. Mas mais do que isto, a uma hora e cinco minutos de Lisboa.

À volta, o céu azul, os barquinhos de pesca com nomes de mulher, as gaivotas, a velha lota improvisada, os pescadores sempre ruidosos, como que fazendo parte de uma aguarela marítima, enchem de cores e sorrisos as alegrias simples uma tarde de sábado em outubro.

Mas há poucos portugueses aqui. Ceuta, Alcácer-Quibir e Mazagão, deixaram má memoria aos Lusitanos. Desde o tempo em que Mazagão foi transferida, por decreto do Marques de Pombal, para a amazónia em 1769, nunca mais nenhum portuga quis ouvir falar de Marrocos. E é pena porque é tão perto.

Quase 250 anos depois, o país de Mohammed VI, rei modernizador dos marroquinos, torna-se mais próximo. Com a ajuda da Tap e da internet, mas sobretudo por estratégia própria, Marrocos vai deixando de ser apenas sinónimo de um destino turístico mais ou menos exótico para ser, cada vez mais, um território de oportunidades.

Casablanca, Dhar-al-Bayda, na tradução literal para árabe, a maior cidade marroquina, com cinco milhões e meio de habitantes é um viveiro de atividade. Gruas, carros, casas, lojas, pessoas, tudo aqui é frenético. Uma nova classe; educada, culta, cosmopolita e com recursos toma a liderança. A economia cresce e floresce, o PIB cresce mais de 4% ao ano. Até dá vontade de chorar quando penso que Portugal discute um orçamento de estado negativo.

Olho para o relógio, seis da tarde, do minarete da grande mesquita, uma voz masculina marca o fim do dia e chama à oração – “Allahu akbar” (Deus é grande), ecoa pela cidade. Aqui tradição e modernidade encontram-se todos os dias com hora marcada, mas nem por isso as buzinas e o bruá das ruas se acalmam. Eu também não rezo, mas vou converter as minhas milhas em passagens e ensinar os meu filhos a falar francês.