Podre poder

A premiada jornalista brasileira, Eliane Trindade, escreveu na Folha de São Paulo uma reportagem extraordinária. Eliane entrevistou, sob anonimato, uma acompanhante brasiliense – moça de programa, como se diz lá, prostituta de luxo, como se diz aqui – a propósito dos quatro deputados brasileiros que tem como clientes.

Todos votaram sim à destituição da presidente Dilma, até um que sempre apoiou o governo, “Fiquei chocada quando soube que ele mudou o voto. É o único da minha turma que é citado na Lava Jato”, dizia a menina de programa à jornalista da Folha mostrando as mensagens que os deputados trocavam com ela ao mesmo tempo que pediam – por amor à mulher e aos filhos, a destituição de Dilma Rouseff.

Este discurso moralista e hipócrita é o pior que a política pode albergar. O ambiente geral descrito na reportagem é grotesco, digno da narrativa bíblica de Sodoma. A vida parlamentar de Brasília, sede do poder brasileiro, é descrita como uma cloaca imunda: repleta de orgias e festas pornográficas, em casas, hotéis e barcos de luxo, propriedade dos deputados na nação.

Mas ainda mais chocante é esta certeza que fica de que, afinal, os deputados falavam apenas a verdade. Era mesmo pelas suas mulheres e famílias que pediam a destituição. Não por alguma falha de legalidade – de que quase ninguém falou – mas apenas para que pudessem continuar a ser hipócritas. E diziam-no em voz alta, num frenesi carnavalesco, para que todo o mundo os visse. Um espetáculo sem precedentes que vai envergonhar durante muito tempo todos os brasileiros decentes.

O escritor argentino Jorge Luis Borges disse um dia que não é por acaso que “podre” e “poder” se escrevem com as mesmas letras. O passado domingo negro brasileiro, mostra que tal não acontece pela virtude de alguma propriedade comutativa, dessas que às vezes cabe nas palavras para as encher de sentidos mágicos ou de curiosidades de almanaque. “Argentino” e “ignorante” também se escrevem com as mesmas letras e nada é um disparate maior. Como se Borges não pudesse ser argentino. Logo ele, que acerta em cheio na natureza do poder.

Mas o Brasil é apenas um detalhe. A História conta-se cada vez mais por “fugas” na internet, papéis no Panamá e vergonhas na televisão.

A revolução digital dá-nos o laboratório, as redes sociais funcionam como fóruns de ciência onde as mentes se agitam, e a comunicação social como as prestigiadas Revistas Científicas onde se publicam as descobertas.

Hipótese, experiencia, demonstração e tese. Tudo bate certo. Quod erat demonstrandum.

Sem margem para dúvidas, o anagrama borgiano é uma verdade absoluta. O poder está mesmo podre.