Portugal Fora da EXPO

| Portugal fora da Expo |
| Portugal fora da Expo |

No pavilhão de Moçambique, Cláudia, a jovem anfitriã que nos recebeu, vive e estuda normalmente em Lisboa e enquanto mostrava as riquezas do seu país lamentava-se da falta de comparência dos portugueses: “É inacreditável que Portugal não esteja aqui representado quando a Expo Milão se realiza tão perto. De resto estamos cá todos”, acrescentou com um enorme sorriso. Maior que Moçambique, maior que Angola e o Brasil. Era do tamanho da nossa história.

Portugal é o único país de língua oficial portuguesa a falhar a Expo 2015 em Milão. Já tinha falhado a Expo 2012. Ambas com decisão deste governo. Será que vamos falhar a próxima.

A Cláudia tinha razão. Com a possível exceção de Cabo Verde – de que não encontrei vestígios no recinto – a Expo 2015 conta com a orgulhosa presença da Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Moçambique Angola e o Brasil – estes dois com enormes pavilhões e uma participação de encher o olho. Encontrei até a Guiné Equatorial a exibir a sua nova língua oficial, mas de Portugal nem um sinal. A nossa anfitriã moçambicana volta a adiantar uma explicação: “Portugal não veio por causa das políticas, mas é uma tristeza!”.

É óbvio que as explicações que o Governo português vai dar para não ter ido a Milão – se alguém um dia perguntar, o que também não é de todo certo – serão claras e compreensíveis, simples e matemáticas, muito razoáveis atendendo às dificuldades do momento e à imensa dívida pública da nação, mas também serão todas erradas.

Faltar ao maior evento mundial quando ele se realiza na Europa, em Itália, em Milão, a duas horas e quinze minutos de distância de avião e a meia dúzia de dias de frete marítimo não tem nenhuma desculpa. É uma saloiice daquelas à antiga, a fazer lembrar aqueles que diziam que os portugueses não precisam de saber ler e escrever.

Mas no caso desta Expo o erro é maior ainda. O tema da exposição deste ano – “Feeding the planet, energy for life”, em português, “Alimentar o Planeta – Energia para a vida” – encaixaria como uma luva em tantos bons exemplos que as nossas universidades, os nossos empresários, as nossas autarquias, teriam para mostrar ao Mundo. Visitando os pavilhões das nações presentes com muita facilidade se compreende que esta exposição é um lugar único de oportunidades, contactos e negócios. Quando o desígnio da política oficial portuguesa é exportar é muito complicado perdoar vistas tão curtas.

“Sim, senhor colunista, o senhor tem muita razão, mas a participação portuguesa custaria uma fortuna que não temos. O senhor não está a ver as nossas dificuldades. Não conhece as contas da nação”.

– Olhe que conheço, minha senhora, olhe que conheço, até reparo que a nossa dívida pública, que tanto nos esforçamos por pagar, nunca foi não alta como hoje e não para de crescer. Mas o que precisamos muito, para além de honrar as nossas contas, é de boas ideias para que Portugal possa vender mais do que o que compra e exportar mais do que pessoas.

O que pode parecer um custo, se por trás estiver uma boa ideia, é quase sempre um bom investimento. E há exemplos disso: um estudo independente sobre o pavilhão holandês na Expo 2000 estimou que uma participação que custou cerca de 35 milhões de euros gerou depois 350 milhões em receitas para a economia dos Países Baixos.

Numa altura em que Portugal precisa como nunca de se afirmar ao Mundo como um país com uma economia credível, falhar a Expo de Milão é trágico. É como voltar ao paradigma dos “pobrezinhos mas honrados”.

Mas há também o turismo: deitar fora a possibilidade de mostrar Portugal aos milhões de visitantes que durante seis meses percorrem a exposição universal é um erro nacional. Quando nos dizemos um país de turismo e queremos ser um dos principais destinos recetores mundiais não estar presente em Milão é pura leviandade. É uma tragédia. Lusitana. Porque em Milão 2015 até a Grécia está presente.


Originalmente publicado em Jornal de Notícias a 20 de julho de 2015