Presépios na alma

Quando era menino, muitas vezes sonhei com rebanhos de ovelhas maiores do que pastores, com gansos e patos grandes como burros, lagos inteiros feitos de vidro, florestas de musgo e pedras e pirilampos coloridos, do tamanho de gaivotas.

Esta não era a fantasia rebuscada de um cérebro de criança, ou um delírio de adolescente. Eu já tinha visto centenas de paisagens semelhantes em casa de amigos durante o mês de dezembro. À época da minha infância, praticamente todos em Portugal montavam na sala lá de casa um grande presépio católico.

Às vezes ainda tenho saudades desses cenários mágicos onde os meus olhos se deslumbravam pelo fascínio do Natal, mas acredito, apesar da nostalgia, que os natais de agora, mesmo com presépios virtuais, trazem às crianças mais conforto e confiança no futuro.

Estas representações do nascimento de Jesus são uma tradição centenária no mundo católico. Uma narrativa simples e poderosa, largamente difundida, e que, para ser contada, precisa de apenas meia dúzia de linhas. São poucos os elementos necessários. As três figuras básicas: Virgem Maria, José e o menino Jesus; os três reis magos e a estrela que os guiou ao recém-nascido. Hélas!

Mas só isto? Porque nos havemos de limitar? Como o presépio original era impreciso – a fotografia ainda demoraria a ser inventada – a narrativa oficial da Igreja Católica permitiu, às vezes até fomentou, derivas iconoclastas que vão desde mudar a raça dos reis magos até à aparição de seres imaginários capazes de envergonhar a imaginação dos escritores hiper-realistas da América do Sul.

No México, por exemplo, os presépios podem transformar-se em extravagâncias elaboradas, preenchidos por todo o tipo de animais e plantas, coisas que são impossíveis de encontrar lado a lado no Mundo real. Alguns exibem rios que funcionam com bombas de água, outros cascatas e lagoas que correm para o ar. Há até cidades inteiras construídas em torno da manjedoura onde Jesus nasceu. A liberdade criativa estende-se também aos personagens, que vão desde figuras bíblicas não relacionadas, como Adão e Eva, até pastores aleatórios, fazendeiros, o Diabo e mesmo fabricantes de tortilhas.

Às vezes ainda tenho saudades desses cenários mágicos onde os meus olhos se deslumbravam pelo fascínio do Natal, mas acredito, apesar da nostalgia, que os natais de agora, mesmo com presépios virtuais, trazem às crianças mais conforto e confiança no futuro. Porque o verdadeiro presépio é, afinal, na alma.