CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA

Queiramos ou não, a escassez mostrou na nossa democracia um significado e uma solidez que ela ainda não tinha tido. Ao fim de três anos Governo e PS conseguiram finalmente ficar de acordo.

Nem crises sucessivas, nem demissões irrevogáveis, nem aproximações presidenciais, nem erros de comunicação, nem o crescimento económico, nem o IRS e o IRC, nem a TSU.  Sempre separados até que a “saída limpa” os uniu.

No tempo em que Portugal esteve intervencionado, ou sob domínio estrangeiro como gosta de dizer o Dr. Portas, os portugueses sofreram muito. Viram alterar-se as expectativas que tinham sobre a vida e a velhice. Empobreceram, emigraram e entristeceram. Fizeram-no em comedido silêncio, como se a culpa  fosse mesmo “deles” como se chegou a dizer. Porque era preciso modernizar a economia e reformar o estado.

Ao fim de três anos, o Estado continua descaradamente por reformar e a economia praticamente tão moderna como já era. No meio do deserto os oásis são sempre mais notáveis do que as árvores numa floresta. Mas o que é certo é que na vigência da troika não se gastou à tripa forra na administração pública, governo e autarquias incluídas, como soía fazer-se.

Bem ou mal foram três anos de rigor e fiscalização, com manifestações, folhas de excel e acórdãos do Tribunal Constitucional. Com debate e decisões difíceis de tomar. A escassez deu à nossa democracia um significado e uma solidez que ela ainda não tinha tido. A culpa não era portanto dos portugueses. Pelo menos diretamente.

Agora a troika vai-se embora e Portugal recupera a sua soberania. Entrega ao governo e aos partidos a capacidade de tomar decisões sem o aval dos credores. Podemos ser outra vez independentes. Portugal entregue a si próprio, aos mercados e aos partidos do arco do poder.

É por isto que PS e PSD estão de acordo. Porque acreditam que no período eleitoral que se avizinha vão poder ganhar as eleições e fazer de novo o que sabem fazer melhor e lhes dá menos trabalho: influenciar as bases gastando o dinheiro do Estado nos aparelhos partidários.

E o mais espantoso é que aparentemente apenas um sairá ganhador. Ou será que saem os dois?