Manipulação

Agora não podemos virar a cara. Já não podemos ignorar a tragédia dos refugiados. Antes ainda podíamos fingir. Assobiar para o ar. Mas agora já não. Porque um menino branco morto na praia tem muito mais força que três mil negros afogados no mar.

Os números são públicos e aterradores. Segundo a Frontex, a agência que gere as fronteiras externas da União Europeia, só a partir da Líbia saem por semana 4 mil migrantes em barcos esfarrapados rumo à Europa. Por ano mais de 5 mil morrem no mar. Mas foi preciso um menino afogado perto de uma estância turística e um clamor mediático para que os donos da Europa tirassem o pescoço de fora. Até a inflexível chanceler alemã aparece cheia de bonomia a resolver o enorme problema que há muito sabia quão grave era.

Reagindo em vez de agir, os líderes da Europa colocam em perigo a segurança de todos. Se alguém tinha dúvidas pode deixar de as ter. Os políticos vivem prisioneiros do medo de perderem a face junto da opinião pública. Para manterem o poder chegam a fazer mais do que o próprio Maquiavel ensinava ao Príncipe.

O tumulto instalou-se nos nossos culpados corações que logo se derreteram como se fossem de manteiga nas ondas turcas onde o pequeno branco jazia morto e arrefecia. Uma imagem a dar razão a Estaline: a morte de uma pessoa é uma tragédia mas a de milhões apenas estatística.

Aqui no Ocidente, nós, europeus, tão seguros da nossa superioridade cultural, do nosso humanismo centenário, das nossas democracias estáveis, da nossa separação de poderes, só pudemos enxergar os contornos da cara do terror quando o terror já era como nós. Quando a tragédia se vestiu como um cordeiro que sabemos entender.

As televisões mostraram, os jornais escreveram, as rádios falaram. Os colunistas indignaram-se, os artistas criaram, os meninos choraram, os campos de futebol silenciaram-se, os padres rezaram ainda mais. Como se fosse possível chorar melhor e lamentar, desta vez “como deve ser”, as estatísticas trágicas da nossa incompetência coletiva.

E fizemo-lo apenas quando já não havia recuo. Porque nenhum político consegue explicar aos corações do povo o menino de Bodrum. Nem mesmo ao povo que nada disse de cada um dos muitos milhares que morrem afogados por ano no Mediterrâneo depois da nossa tão querida Primavera Árabe.

“What goes a round comes around” – Mas a culpa do que está a acontecer é “nossa” e é antiga. Porque os “descobrimos”. Porque desde a Revolução Industrial temos usado os países de África e da Ásia como se fossem nosso quintal e armazém, dispondo das suas riquezas muitas vezes à força. Porque desde o fim da Guerra Fria observámos, inertes, como os Estados Unidos, sem inimigo, encontravam (criavam) no terrorismo global a sua nova narrativa para a manutenção do poder global. Vimos impávidos – pouco tempo depois de o recebermos em Portugal como homem de Estado – o coronel Kadafi ser linchado em direto às mãos de milícias populares e sabe Alá que mais, protegidas pela força aérea norte-americana. Vimos toda a Primavera Árabe a “democratizar” o Magrebe colocando no poder a conspiração secular e silenciosa das madrassas. E até aplaudimos a queda dos ditadores que garantiam a segurança das nossas fronteiras.

Com a exceção de Marrocos, onde um rei inteligente e culto soube proteger o seu povo, todo o Norte de África se transformou, agora já percebemos, na fronteira do califado.

Que ninguém duvide. Este é um assunto de terror. São terroristas os que exploram o negócio dos migrantes, os mesmos terroristas que degolam inocentes e rebentam cidades com três mil anos apenas para que nós possamos ver e temer.

Durante mais de uma década de barcaças assobiamos para o lado como se o lago mediterrânico fosse um oceano intransponível e enquanto empobrecíamos na crise tropeçando na pequenez da dívida grega o verdadeiro inimigo chegava à nossa porta.

Será que alguém sabe dizer quantos terroristas estamos a alojar, hoje mesmo, no nosso quarto de visitas?


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 7 de setembro de 2015