O regresso da guerra

O silêncio corre atrás do tempo como os mísseis voam à frente das palavras.

Finalmente o urso acordou e mostrou ao mundo que o palhaço ruivo é apenas palhaço quando é uma figura de estilo; daquelas que os votantes pacóvios da América profunda papam à grelha dos hambúrgueres, cheeseburgers, banjo e bandolim, no Alabama dos aligatores nas terras do Tio Sam. “To all the girls I loved before…”

O homem mais poderoso do mundo, manda em toda a parte, menos na América, que é o único país onde devia mandar.

É só aí que a América vem primeiro, oh palhacinhos Hill Billies, parolitos da América. Vós que suais, à luz da lanterna-mina, os caviares de Wall Street; vós que vos vestis de moda Trump mas vos esticais na lama da conversa à espera de um sonho que só tem deferimento na vossa ignorância; vós os boys dos Mid-westes, trabalhadores de siderurgias de gás de xisto, oficiais e cavalheiros, Richardes Geres de pacotilha; vós mães gordinhas de linhas de montagem, sonhadoras de resorts e hot dogs, franchisadas da vontade de mudar, e que nunca vão chegar a saber que isso era só conversa do Urso laranja, teddy bear, peluche fofo, para vos enganar à mesa das paixões.
A América afinal já não vem primeiro!
Ficou entalada no Senado, na desculpa do Congresso, na ilusão de que alguém para lá de Washington poderia mandar no que quer que fosse, que não apenas no mundo lá de fora. O homem mais poderoso do mundo manda em toda a parte, menos na América que é o único país onde devia mandar. Os burocratas, congressistas, senadores, lobistas, jornalistas, mandam mais que o senhor Trump e não foram precisos muitos dias para que ele percebesse que a única maneira de continuar a viver na Casa Branca era desistir de mandar nela. O que na semana passada aconteceu.
Foi por causa de santos da casa não fazerem milagres, que os Tomaóques, avião-míssil, bombardearam os pobres demónios Sírios lá, do outro lado do Mundo; malvados, mas carne para canhão; velhacos, mas abertura de noticiário; infames, mas manchete de jornal; canalhas, mas sobremesa de Estado.
Foi quando o Urso Laranja, num jantar de convidados, tendo sentado à sua mesa, o outro homem mais forte do universo, o presidente da China Xi Jimping, no meio de uma grelhada mista de T-bones, Tex-mex, disco sound, motown, sópráqui, usou aquele descontraído momento de descanso, para dizer ao líder de todos os chineses, de colher de chá na mão, logo depois da bavaroise, que ia mandar para o mar da China uma esquadra inteira, grande, com um daqueles porta-aviões Ross-dos-bons para meter a Coreia do Norte no lugar, coisa que o império do meio não estava a conseguir fazer. E explicou num daqueles torpedos cibernéticos túitestéticos – “Eu expliquei ao presidente da China que só fazem negócios connosco se resolverem o problema da Coreia do Norte” Pim, Pam Pum.
E antes do cafezinho, o Urso Laranja, não deixou de sublinhar que nada disto era uma brincadeira, pois se o senhor Jimping ligasse a televisão naquele momento, ia logo ver, mesmo ali, o próprio Putin, senhor dos Czares, vociferando contra mim, por lhe ter rebentado meia dúzia de aviões na pista dos seus amigos sírios.
Agora, o Urso Laranja já sabe que é só pode mandar fora de casa. E que isso se também se faz nas televisões, mas com bombas a rebentar. Como nos Vietnames, nas Coreias, nos Iraques, nos Koweits. Trump percebeu que, afinal, é apenas um republicano na Casa Branca e quando isso acontece, os Generais mandam mais alto.
O tempo da guerra está de volta.

in Espuma dos dias; Diário de Coimbra, 12 abril 2017