Ronaldo. Pena e glória


Se fosse uma campanha publicitária não chegava um orçamento de Estado para a pagar. Por causa de fé e talento, ontem, em qualquer lugar do mundo, foi impossível sair à rua e não ver Portugal.

Ontem, pelo menos metade das primeiras páginas e das montras de internet dos média internacionais tinham a foto de Cristiano Ronaldo em destaque na capa. No quiosque, no computador ou na TV, o verde e o vermelho, a figura do craque e a palavra Portugal eram omnipresentes.

Ter atores de excelência nas industrias globais é bom, mas ter o melhor do mundo na mais global de todas as industrias, é ainda melhor. Salvaguardadas as devidas distâncias, ter o Ronaldo está para o século XXI como Vasco da Gama ou Pedro Alvares Cabral estiveram para os Descobrimentos.

Mas o jogo de sexta-feira foi muito mais que um espetáculo desportivo e mediático. Foi também um ajuste de contas. O mesmo dia em que Ronaldo faz um dos melhores jogos da sua carreira desportiva também foi o dia mais negro da sua vida (este período está com uma formulação estranha). Aos olhos da lei, aceita tornar-se um condenado.

Antes da partida, os noticiários de todo o mundo davam conta de que o jogador português aceitava, num acordo com a justiça espanhola, a culpa. Fez um acordo com as autoridades em que escolhia dois anos de cadeia (com pena suspensa) e pagar quase 19 milhões de euros de impostos a defender a sua honra em tribunal. Ronaldo confessa o crime.

Mas ele é um ser humano extraordinário. Perante a evidência de que faltou aos seus deveres com a sociedade, não só consegue evitar que essas notícias afetem o seu desempenho, como arranca, e logo contra a Espanha, o país que o condenou, um dos maiores feitos de sempre. São poucos os homens que conseguem fazer isto.

Habituado a estar no centro das atenções, o craque português, sabe que quando não é possível evitar os fatos, a única estratégia possível é abraçá-los. Cristiano Ronaldo, do alto da sua orgulhosa personalidade, responde no maior palco do mundo, com a grandeza só possível aos predestinados. Como um sem-Deus ferido, responde à condenação de dois anos com um hat-trick em 90 minutos.

A pena pode até ser suspensa, mas a glória, essa, é eterna.

* ESPECIALISTA EM MEDIA INTELLIGENCE @JN