São precisos mais jornalistas

Em menos de uma década Portugal perdeu um quinto dos seus jornalistas. Se forem poucos a contar o que acontece, o que é que vai ficar para a história?

[bctt tweet=”O jornalismo Português é um animal em perigo de extinção “]

O jornalismo livre e independente é a mais importante medida da qualidade das democracias. Para haver jornalismo livre e independente é preciso que, dentro das redações, existam tempo e conhecimento suficientes para que os jornalistas possam interpretar a realidade e dela dar boa conta aos seus leitores. Isso obriga a que os jornalistas possam pensar, questionar, investigar, escolher e triar quais são os acontecimentos mais importantes e sobre eles escrever as notícias que no seu entender melhor traduzam a realidade. Infelizmente isso agora não acontece.

As redações dos órgãos de comunicação social portugueses nunca foram tão pequenas, tão inexperientes, com tão poucas referências históricas e culturais e com tão pouco “saber” como agora. Nunca foram tão dependentes das dificuldades económicas e nunca foram tão proletarizadas. Se há uma área que devia ser protegida, por lei, dos vícios da sociedade moderna – desde os do capitalismo neoliberal, aos do neo-anarquismo esquerdalho-tecnológico – essa é o jornalismo.

Javier Martin del Barrio, o correspondente do jornal El País em Portugal escrevia: “O jornalismo Português é um animal em perigo de extinção (…) entre 2007 e 2014, o censo dos jornalistas em atividade caiu de 6839 para 5621, 17,8% menos”. E os que saem são muitas vezes os mais velhos, mais caros e com mais memória empobrecendo irremediavelmente as redações.

Para isto concorrem dois fatores: a crise económica, mas essencialmente a incapacidade da industria da comunicação social em adaptar o seu modelo de negócio às lógicas de mercado na sociedade da conectividade global.

Sem proteção na defesa da ética e da deontologia, a matriz pela qualidade tende a desaparecer. José Rebelo professor catedrático do ISCTE afirma-o com todas as letras: “É compreensível que os jovens estagiários não deem prioridade às regras éticas e deontológicas porque a sua prioridade é obter um lugar na redação, o que provoca conflitos nas redações e diminui o seu poder reivindicativo”.

Mesmo que aparentemente o público já tenha perdido o sentido crítico, é preciso ter sempre presente que, agarrar num microfone ou num gravador e reproduzir sem espírito crítico o que alguém diz, não é jornalismo.


As presidências foram disto um retrato fiel. Durante a campanha eleitoral o esforço exigido à comunicação social para cobrir uma campanha de 10 candidatos – mais a da nova líder do CDS-PP que decidiu fazer campanha ao mesmo tempo – fez com que a realidade observável encolhesse substancialmente. O que de mais se passa em Portugal e no mundo, só esta semana vai regressar, e mesmo assim em pouco quantidade. Com a exceção do futebol, sempre omnipresente, não havia espaço para mais.

Dá muito que pensar quando a escolha das notícias é definida pela falta de recursos e não por opções jornalísticas. E quando são obrigações democráticas a diminuir a nossa visão do mundo, ainda é pior.

Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 31 de Janeiro de 2016