PS: Seguro a Presidente

António José Seguro foi afastado da liderança do Partido Socialista por causa da comunicação social. Foi a “boa imprensa” do então presidente da Câmara Municipal de Lisboa que derrotou a estratégia (outros dirão as indecisões) do antigo senhor do Rato.

Este processo, que culminou nas primárias, revelou o grande sentido democrático do antigo líder socialista. Seguro, que era secretário-geral, comandante da máquina socialista e dono do aparelho, escolheu a legitimação pelo povo, em vez da anunciada vitória que lhe daria uma votação em congresso e à moda antiga.

Quando nada o obrigava a ceder o poder e apenas precisava de o gerir, António José Seguro, farto da gritaria mediática de alguns jornalistas e muitos socialistas – Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira, Carlos César, José Lello, só para falar de alguns -, escolheu uma democracia integral. Decidiu submeter-se a um sufrágio inovador para se legitimar.

Para quem via de fora, para Seguro aquelas primárias sempre foram uma batalha perdida. Nunca nenhum líder se conseguiu eleger contra a opinião, e a convicção, da comunicação social.

Terá então sido apenas uma grande cultura democrática – e não a impreparação, de que muitos o acusaram – o que impeliu a aceitar um combate destinado ao insucesso?

Seguro, que podia ter escolhido uma eleição normal e uma vitória fácil utilizando os votos dos congressistas do PS que “controlava”, preferiu a cultura da liberdade e fez no Partido Socialista aquilo de que Portugal tantas vezes precisa que se faça na vida pública. Preferir os princípios aos interesses.

António José Seguro acreditava que o tempo para fazer uma oposição mais ativa ao Governo não era aquele; sabia que se começasse a desgastar-se muito cedo, chegaria mais frágil às eleições; sabia que precisava de esperar mais tempo, antes de atacar o primeiro-ministro, para que o PS pudesse ganhar as eleições. E, mesmo sabendo o que António Costa representava, Seguro preferiu cometer o tal erro clássico que Churchill tanto explicou, e deixou que Costa, o inimigo interno, o derrotasse. Foi apeado da liderança do PS sem nunca ter perdido uma eleição.

Depois de perder, saiu de cena. Como um democrata, deixou todo o palco ao novo líder, sem nunca tecer uma crítica. Mesmo agora, quase um ano já passado depois da vitória de António Costa, não se lhe ouve um murmúrio, um comentário, um reparo. Mesmo estando o PS no pior momento desde que Passos Coelho governa, mesmo quando as sondagens já dão a vitória à coligação, Seguro continua no seu silêncio de estadista, sem fazer ruído.

É verdade. Está comprovado. A “alma mater” de António José Seguro não era talhada para os truculentos corredores de São Bento, mas, pensando bem, é perfeita para os jardins de Belém.

Seguro tem aqui uma oportunidade de ouro de fazer as pazes consigo, com o PS e com Portugal, e enfim conquistar o seu lugar na história. Mas, nesta altura, António José Seguro é também o candidato de que o PS precisa, pois nenhum dos que se apresentaram até à data conseguiu mobilizar o partido ou o país.

Henrique Neto é militante, mas demasiado anónimo e, mesmo com o apoio oficial do partido, é quase impossível que possa ganhar às figuras de peso que a direita promete apresentar. Sampaio da Nóvoa, também um “outsider”, mas que nem sequer é militante, causa tantos desconfortos no PS, que o partido até já convocou Maria de Belém Roseira para o perder.

Com este cenário, o caminho está completamente aberto ao antigo líder socialista e é uma solução que depende apenas dele. Se Seguro se candidatar, António Costa até pode ter uma semana de azia, mas, depois, não terá outro remédio senão apoiar o seu antecessor. Até porque, se quiser ganhar as legislativas, precisa do apoio que o antigo líder lhe pode dar dentro do partido.

António José Seguro é a solução de que o PS tanto precisa para ganhar as eleições que se avizinham. Além de que reúne todas as condições para ser um excelente presidente da República: é equilibrado, formal, conciliador e um homem de consensos.

Exatamente aquilo de que o país precisa para gerir governos de minoria e os anos difíceis que se avizinham.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 6 de julho de 2015