Vai apitar, tu apitas bem.

Pedro Proença abstenção

Em Portugal nunca são o PS ou PSD a ganhar as eleições: é sempre a abstenção. Esse é o maior flagelo da nossa democracia. Mas este ano, a Comissão Nacional de Eleições que gasta muito dinheiro aos contribuintes em campanhas publicitárias a favor participação eleitoral, tem mais um adversário: o presidente da Liga de Clubes, o senhor abstenção.

Isto porque a Liga, e o seu presidente, decidiram promover um confronto estúpido entre a democracia e o futebol. De um lado as eleições autárquicas – e o pouco interesse das pessoas pela política; do outro, a devoção e as convicções clubísticas – que tão bem serviram os regimes autoritários. Mas os homens do futebol, cujo sucesso se alimenta da fé, das convicções e da devoção das pessoas, marimbou-se para as eleições. Borrifou-se para a democracia. E mais do que isso até desafiou a autoridade.


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Qualquer cidadão com responsabilidades acrescidas que dificulte a participação eleitoral, é um inimigo da democracia e um obstáculo ao saudável funcionamento da sociedade. Este tipo de atitude tem sempre de ser condenado. Sem argumentos de circunstância, exercícios de retórica ou fervores clubísticos.

Pedro Proença, antigo árbitro, talvez habituado à impunidade tantas vezes apontada ao mundo do futebol, não resiste a puxar do cartão vermelho para expulsar do seu terreno um jogador indesejável: o Estado. Que não tem nada que se meter na bola!

Apesar das autoridades lhe terem recomendado e depois o Governo lhe ter sugerido, a Liga responde– a lei está do meu lado – e faz orelhas moucas. Agora vai ser preciso mudá-la por causa da pispineta. Vai ser preciso inscrever mais uma proibição na lei, coisa sempre má, apenas porque não existe bom senso na bola. É como aquela história do puto malcriado que, mesmo sabendo que no futuro vai ser castigado pelo pai continua, continua a portar-se mal com um sorrisinho maroto.

No primeiro de outubro, à hora do Telejornal, quando tivermos a indicação de que a abstenção voltou a ganhar as eleições com maioria absoluta, já poderemos todos agradecer, a uma só voz, ao senhor Pedro Proença.

Podemos fazê-lo ao jeito da Juve Leo ou dos Super Dragões, com os cânticos e palavras de ordem que sempre fazem corar a mãe do senhor do negro, ou com uma letra nova, de inspiração futebolística, a ecoar no estádio; “Vai apitar, tu apitas bem.”

Era merecido!

Foi um texto do Miguel Guedes querido amigo, ilustre pensador, talentoso músico, distinto colunista do JN e mágico do futebol, que me inspirou a coluna.