Sobre a violência doméstica

Olá boa tarde

O meu nome é José Manuel Diogo e sou um Lobista. A minha principal atividade profissional consiste em alinhar interesses de várias organizações no sentido do desenvolvimento comum.

Sou um gestor de interesses, um homem de negócios alguns amigos dizem que sou um opinion maker.Por isto confesso que não percebi porque é que fui convidado para vir aqui falar sobre violência doméstica.

Quando a Myriam Taylor, a quem dou os parabéns pela coragem e pela força de organizar este coloqio, me convidou, disse-lhe:- Não sou um especialista no tema não conheço a questão profundamente e apenas vejo o que as notícias dizem. Preocupo-me como um cidadão, mas não mais que isso. Tenho a certeza que há gente muito mais habilitada a falar desse tema. Sugeri uns quantos.

A Myriam insistiu e disse-me que tinham sido uns textos que eu escrevi, aqui em Portugal no Jornal de Notícias – onde mantenho uma coluna semanal há muitos anos – e a minha fé de feminista convicto – de que ela tinha ouvido falar – que estavam na origem do convite. Depois conversámos umas quantas vezes e acedi.

Um desses textos, um manifesto a que chamei “Neto de Moura, filho de cristã”, sobre o tal juiz do norte, dá nome a este pedacinho de tempo em que vos venho falar.E é com pena de vos desiludir porque isto não é um pretensioso key note, mas apenas simples e breve reflexão sobre a violência doméstica no mundo em que agora vivemos que peço a vossa atenção nos próximos 10 minutos.

Esta é uma reflexão feita por um pai.

Pai de um homem jovem adulto e uma menina adolescente, que têm sobre a vida e sobre a família conceitos éticos muito distantes daqueles em que eram os meus quando tinha a idade deles. Mas que não admitem a ninguém, porque não o compreendem, que qualquer assunto tenha uma leitura de género. Ser mulher, homem, trans, cis o que quer que seja não é assunto de qualquer estranheza. Não percebem piadas de género. Condenam-nas com nojo. Isso é um sinal.

É uma reflexão feita por um ex-marido e ex-namorado.

Tenho na minha conta pessoal as dores de dois divórcios e outras duas separações, tão intensas, dolorosas e transformadoras como os casamentos. Tenho de vos confessar que nesta qualidade fui autor e vítima de violência doméstica. Não física, mas moral. Porque nem eu nem as minhas companheiras tivemos o treino e a educação para poder lidar com as dificuldades e as diferenças que a vida nos foi trazendo durante as nossas relações. Aprendemos na escola e na universidade como ser bons profissionais, mas em lado nenhum como ser bons companheiros e companheiras. Isso devia mudar.

É uma reflexão feita por um amigo.

Amigo de muitas pessoas que se apaixonaram, se juntaram, se casaram e depois se separaram. Amigo de pessoas insuspeitas e de uma generosidade enorme, mas que num ou noutro momento aceitaram e conviveram com a violência dentro de casa. Às vezes violência física. Aceitaram-na e conviveram com ela por razões culturais e religiosas. Por vergonha da família, por vergonha de se confessarem erradas, muitas vezes por conveniência material e na maioria das vezes pela conjugação insidiosa do egoísmo pessoal com a vergonha alheia. Na nossa sociedade praticamos muito pouco a humildade e a culpa é normalmente o denominador comum para o conflito.

É uma reflexão feita por um empreendedor.

Um empreendedor e inovador que pensa todos os dias como é que a tecnologia pode ajudar as pessoas a comunicarem melhor quando vivem juntas. Um empreendedor que, com uma equipa de mulheres estamos a desenvolver uma aplicação, ainda está muito no início, mas que vai ajudar as pessoas a melhorar a sua relação com os seus parceiros evitando o conflito.

Uma reflexão feita por observador da sociedade.

Por um colunista nos jornais que tem o privilégio de expressar a sua opinião em meios de comunicação social de grande circulação aqui em Portugal e também no Brasil.

E nesta condição que venho partilhar convosco esta ideia particular. A violência doméstica não é o principal problema que as mulheres enfrentam na sociedade.

São chocantes e envergonham Portugal as notícias das mortes de mulheres assassinadas pelos seus companheiros, maridos e namorados.

Mas isso é apenas uma parte do problema, que, sendo muito grave e a mais visível, não é a maior.O principal problema das mulheres na sociedade já não é a violência doméstica. A violência doméstica é um problema de atraso civilizacional, não é uma questão de igualdade.

Quem – seja a comunicação social, sejam associações de diretos humanos, sejam políticos – se aproveitar dela para aumentar audiências e notoriedade, não está a prestar um bom serviço à causa das mulheres. As mortes de mulheres por violência doméstica – crimes hediondos – não são um assunto relevante na luta que é preciso travar na sociedade pela igualdade e diversidade.São um assunto de direitos humanos, que se coloca noutro patamar.

Quem confunde isso está a desfocar a sociedade do que é fundamental.Combater a violência doméstica, por muito que nos custe admiti-lo, não resolve o problema de não haver mais mulheres a gerir grandes empresas nem está a contribuir com a sua qualidade para a construção uma sociedade melhor.Ao contrário! Desvia a opinião pública dessa necessidade.

A violência doméstica é a cortina de fumo perfeita para que este debate decisivo se adie.Porque é mais fácil para todos pensar que, antes de resolver o problema da integração total das mulheres na sociedade, seja preciso resolver o problema de comportamento que alguns bárbaros trogloditas – sejam agressores, sejam juízes– que a civilização ainda não fez o favor de visitar.

Isso não é verdade nem boa ideia.

Meter os dois problemas no mesmo saco apenas faz com que a justa e necessária luta de todos (homens e mulheres) pela igualdade e diversidade baixe a um nível onde ela felizmente já não está.

Há uma luta contra o crime e outra pelo desenvolvimento da sociedade.

Que não se confundam nem se deixem misturar.

Muito obrigado a todosLisboa, 30 de Maio 2019
José Manuel Diogo