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Fim da globalização

O fim da globalização?

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A Uber e o Futuro


Para uns Uber quer dizer táxi, mas para outros quer dizer tóxico. O estado deplorável a que a frota de táxis chegou, o mau humor de alguns taxistas e um serviço melhor e mais barato são os argumentos principais da narrativa Uber. Uma história muito bem contada que usa a fragilidade e a preguiça de um sector habituado ao monopólio. Mas a questão é mais complexa.

[bctt tweet=”Os donos da Uber são a Google, Amazon e a Goldman Sachs”]

A Uber é uma empresa internacional que gere, a partir da internet, uma rede de carros (particulares e alugados) que são usados para transporte de passageiros mediante um pagamento. Ou seja, a Uber é como uma empresa de táxis. Só que não paga licenças, os seus condutores não têm “carta profissional”, não fizeram um curso e não têm seguro a proteger os passageiros. Os carros Uber, apesar de serem mais confortáveis e oferecerem um serviço melhor são uma falsa, e perigosa, boa ideia.

Estas questões que ajudam a explicar este aparente paradoxo.

Como é que tem corrido o negócio à Uber? – Mal. Só nos primeiros 9 meses do ano passado a empresa perdeu 1,7 biliões de dólares.

Quem perdeu tanto dinheiro? – Os donos da Uber: Google, Amazon e a Goldman Sachs.

Porque que é que isto acontece? – Porque a Uber tem tanto dinheiro que pode oferecer preços tão baixos que, em algumas cidades, nem sequer cobrem o custo do combustível e da desvalorização do carro.

Porque é que a Uber tem tanto dinheiro quando dá tanto prejuízo? – Porque as grandes multinacionais põem o dinheiro em contas offshore e não pagam impostos localmente. Como os países não se modernizaram administrativamente quando tinham dinheiro, agora que estão sufocados (escravizados) pelas dívidas soberanas e pela austeridade não se podem modernizar.

Por último, porque é que a Uber insiste em perder dinheiro? – Para poder acabar com a concorrência. Depois disso pode aumentar o preço e fazer o mesmo com outros serviços, por exemplo, estafetas e alimentação.

A globalização e a conectividade geral dão-nos muitas vezes a ilusão de que tudo é bom. Mas nem sempre é. Desde todos os tempos, a história mostra-nos como aparentes boas ideias foram mais tarde abandonadas por se mostrarem erradas e às vezes até perigosas.

Outra ilusão é a de que as regulamentações e as restrições a certas profissões são apenas medidas corporativas que visam defender uma certa classe independentemente daquilo que esteve verdadeiramente na sua origem. Normalmente essas restrições destinam-se, antes de qualquer outra função, a proteger os clientes e as boas práticas.

Esta semana um motorista de Uber foi acusado de matar 6 pessoas nos Estados Unidos, a Estação de televisão CNN diz que os crimes ocorreram enquanto o motorista trabalhava – entregava uns passageiros ao seu destino, outros ao criador, aleatoriamente. Matava e cobrava.

A Uber diz que esse motorista não tinha antecedentes criminais quando começou a trabalhar, mas o que é certo é que não sabemos como é que essa verificação é feita. Ter a certeza se o nosso taxista é ou não um criminoso é uma coisa muito relevante. Se o registo criminal e a qualificação técnica dos taxistas é verificada pelas autoridades nacionais, todos os que prestam o mesmo serviço devem submeter-se ao mesmo critério. Não faria sentido haver médicos oficiais e outros oficiosos. Nem professores, nem enfermeiros, nem fiscais, nem polícias. A Uber é um precedente perigoso. Por isso tem de acabar.

Com isto não quero dizer que o “uberista” norte americano matou os seus clientes porque os condutores de Uber são piores pessoas que os motoristas táxi. A loucura acontece sem aviso prévio. Este crime que aconteceu nos Estados Unidos, dificilmente aconteceria em Portugal, pois aqui o porte de arma é muito mais restritivo que no estado do Michigan, onde os assassinatos aconteceram. O que quero dizer é que, nem os Estados não se podem demitir das funções de regulação, nem os cidadãos se podem deixar embriagar pelas possibilidades infinitas da modernidade.

Há excelentes invenções que por um ou outro motivo não se tornaram viáveis. Mas não devemos pensar que tudo o que a tecnologia e o progresso trazem são, só por isso, coisas boas ou viáveis. Basta pensar no avião Concorde, era o mais rápido e mesmo assim deixou de ser usado.

O progresso triunfa sempre, mas só compensa às vezes.