O que ainda ninguém disse sobre Tancos

O que aconteceu em Tancos é natural. Só espanta quem não está atento à forma como as Forças Armadas portuguesas têm sido tratadas pelo Estado nos últimos 30 anos. O que espanta verdadeiramente é que ainda ninguém tenha roubado um avião F16 ou três carros combate da Brigada Mecanizada.

Nas últimas três décadas as nossas forças armadas nunca se modernizaram administrativamente. Continuam a ter os mesmos processos arcaicos que tinham nos anos 80 e, enquanto as tecnologias de informação transformavam a sociedade, as FA continuavam, muitos ramos ainda continuam, na era dos requerimentos em papel azul de 25 linhas.

Mas o que é certo é que até ao roubo de Tancos, e mesmo depois dele, ainda ninguém ninguém se preocupou muito com isto.

Portugal escolheu como estratégia para a sua política de Defesa, viver na ilusão bondosa de que é um país pequeno e seguro onde, as Forças Armadas, desde que compram as missões internacionais a que estão obrigadas não servem para mais nada. Como se não precisássemos delas para nada. Como se fossem inúteis. Como se nada lhes devêssemos.

O poder político, desde a Extinção do Conselho da Revolução (1982) até hoje, adotou, conscientemente, uma estratégia de enfraquecimento das Forças Armadas na sociedade. E fê-lo da forma mais perniciosa. Escolheu, conscientemente, transformar as Forças Armadas numa estrutura cada vez mais obsoleta, com processos arcaicos e hiperburocratizados.

Em vez de se modernizar, a Defesa engordou, ficou preguiçosa e encheu-se de clientelas. Simultaneamente, o poder político, ia ganhando cada vez mais domínio sobre uma cúpula de oficiais generais a quem encarregava da manutenção do status quo. O mérito desapareceu da liderança e, quando isso acontece, fica mais fácil fazer buracos na cerca.

Mas se Tancos é apenas um episódio, é também uma esperança. A intervenção do Presidente da República, exigindo saber, como Comande Supremo, “doa a quem doer e não deixando ninguém imune” o que aconteceu no polígono, é uma oportunidade de ouro para repensarmos o papel das nossas FA nos dias de hoje e para o futuro.

É preciso devolver às FA o prestigio e a reputação que as últimas três décadas lhes tiraram e fazer com que elas sejam, de novo, parte do orgulho nacional em vez de uma piada de caserna.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 9 de julho de 2017