Terror e redes sociais

Aos ataques de Paris seguiu-se de imediato uma gigantesca ação de propaganda nas redes sociais. Os ativistas da jiade que se identificam com o ISIS levaram a cabo uma das maiores ações de marketing digital ao serviço do terror e de imediato arrancou uma verdadeira campanha de marketing digna de qualquer empresa multinacional. Em muitos aspetos o estado islâmico parece cada vez mais isso mesmo: um franchising internacional.Aos ataques de Paris seguiu-se de imediato uma gigantesca ação de propaganda nas redes sociais. Os ativistas da jiade que se identificam com o ISIS levaram a cabo uma das maiores ações de marketing digital ao serviço do terror e de imediato arrancou uma verdadeira campanha de marketing digna de qualquer empresa multinacional. Em muitos aspetos o estado islâmico parece cada vez mais isso mesmo: um franchising internacional.

Muitos utilizadores, homens e mulheres na realidade ou simplesmente avatares (utilizadores das comunidades sociais com perfis falsos), aparecem nas redes partilhando o slogan (#hashtag) “Paris está a arder”, em árabe ?????_?????.#. O objetivo é sempre multiplicar a mensagem espalhando o seu conteúdo, aumentando o terror e o medo nas duas comunidades digitais. A dos infiéis, que somos nós, mas também a sua própria. As redes sociais são um instrumento de controlo sobre a comunidade árabe. Entre os falantes de árabe, no seio das famílias, entre pais e irmãos, no trabalho, entre colegas, o que será mais difícil? Fazer “gostar” ou ficar calado? O ISIS também observa os “likes” de cada um. Como nas piores guerras o espírito do terror continua no mundo online, obrigando ao silêncio, fazendo chantagem sobre a sua própria população, aprisionando os espíritos, decapitando a liberdade.

Mas que ninguém se engane, a gestão terrorista das redes sociais é coisa de profissionais. O grupo de Public Relations jiadista, Al Nusra Al-Shaiyya, elogiou os feitos do “estado islâmico” por derrubar o avião de passageiros russos acima do deserto do Sinai, pelos ataques bem-sucedidos no bairro xiita de Beirute e pela série de ataques em Paris. A agência de comunicação palestina, Al-Nusra Al-Maqdisiyya, produzia uma campanha de publicidade onde as técnicas utilizadas revelam obra dos melhores profissionais. Por toda a Internet ecoam slogans “heroicos”. “Esta onda de ataques começa em França mas deve continuar noutros países ocidentais”, “Paris está no topo da lista de alvos, agora Roma deve ser atacada”. Outros ainda prometiam ataques semelhantes em Londres, em Berlim, em Roma e em Moscovo. O fórum jiadista Shumukh Al-Islam, que se identifica com o estado islâmico, destacou o tema na sua página, sob o título “Um anúncio sobre a invasão abençoada à França dos Cruzados”, o “post” incluía essencialmente expressões de alegria e mais ameaças para a França e a outros países ocidentais.

O grupo Al-Battar, instrumento de propaganda do ISIS, publica a última prosa de Al-Ikwan, um dos mais famosos internautas do terror. Os seus argumentos são simples “nenhuma misericórdia deve ser mostrada em relação ao Ocidente”. Refere o massacre do povo argelino pela França, o ataque nuclear dos Estados Unidos ao Japão, o bombardeamento de crianças no Iraque, e assim por diante. Propaganda pura. Al-Sururiyya, outro best-seller da jiade digital, nem precisa da causa: “as tentativas dos países ocidentais para lutar contra o estado islâmico e impedir a implementação da Sharia nunca terão sucesso”. Mais propaganda.

O que é certo é que uma semana depois, por vontade própria, por ação da inteligência ocidental aliada, ou dos hackers livres do Ocidente – Anonymous à cabeça ¬- já nenhum destes conteúdos está disponível. O terror digital desapareceu da internet como apareceu.

Os estados europeus precisam de reavaliar as ameaças e a sua vulnerabilidade usando as metodologias mais avançadas. É isso que fazem os terroristas. São verdadeiros profissionais. É preciso estabelecer novas unidades de contraterrorismo e ampliar com urgência as capacidades já instaladas. Só assim se poderá dar uma resposta eficaz a estes ataques que são cada vez mais complexos, multilocalizados, integrados nas sociedades alvo e simultâneos. Assim foi agora em Paris, assim será nos próximos ataques.

Os países do Ocidente devem disponibilizar o financiamento necessário para combater o terrorismo de forma eficaz, reforçando a HUMINT (Inteligência humana), a COMINT (Inteligência nas comunicações) e a OSINT (Inteligência em fontes abertas) aumentando sobretudo a capacidade de compreender as redes sociais.

É muito mais barato que comprar armas. E muito mais eficaz. Mas será que isso interessa?P.S.: “estado islâmico” escreve-se com letra minúscula porque não é nome próprio nem começa coisa nenhuma.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 23 de novembro de 2015