A torreira do sol

Vou atirar-me à torreira do sol a pensar que não há aquecimento global. Assim sabem melhor os 40 graus que estão hoje. Podia até pensar que a caloraça é só do verão que se anuncia, mas não me parece. Há alertas vermelhos por toda a parte e, segundo cientistas, dos 17 anos mais quentes de sempre, 16 foram já neste século.

É fruta ou chocolate!

Todos os anos se acrescentam centímetros ao nível do mar e graus à temperatura média do nosso planeta, mas devem ser só coincidências. Não está nada mais quente! O que há é mais termómetros, ou fake-termómetros, a medir mal. Esse aquecimento só pode ser uma ficção.

Olh’ó bolacha americana!

Não é o senhor da América – conhecido na margem esquerda do Guadiana como Dónal Trampa – que afirma a pés juntos que não há evidências de nada disso? Ele tem muita razão quando diz não vai gastar um tusto a poupar o planeta do calor humano. Mas como é que se pode viver sem calor humano?! Melhor mesmo é ir molhar os pés à beira mar, antes que a maré alta suba o paredão e os bares de praia virem piscinas de água salgada.

Bolinha de Berlim, olh’á bolinha!

Mas a culpa não é só do homem laranja. Ainda ontem foi 17 de Junho, o dia Mundial contra a Desertificação, e quase ninguém se lembrou disso. Não uns (poucos) jornais a lembrar a efeméride, e até se podia cancelar o dia.

Na TV houve tempo para tudo, menos para isto. Houve para o processo contra o CR7 , que se calhar até serve o desejo justiceiro das procuradoras espanholas que sabem que está na moda, e rende reputação, processar futebolistas. Houve tempo para os ratings da nação, a sair de lixo pela primeira vez no ranking da Fitch, uma das três grandes instituições de avaliação de risco de crédito, cujos acionistas enriqueceram até à insanidade com o ataque às dividas soberanas. Houve tempo, muito tempo, para os emails do Benfica que revelam a santa pouca vergonha que é agora o futebol vermelho; o que nem podia deixar de ser, quando pseudojornalistas chegam a diretor. E para a Agência Europeia do Medicamento, que só quer aterrar na Portela. Eu sei lá!

É muito perigosa a torreira do sol. O melhor mesmo é ir a banhos e fazer de conta que a água não derreteu no Ártico nem inundou o banco de sementes que a humanidade guarda para o caso de uma catástrofe atingir a Terra.

A banhos! Não vá a ignorância matar-nos a todos.

 

Publicado originalmente
Jornal de Notícias em 18 de junho 2017