Triturar políticos

Dogma: não há nenhum direito de resposta que lave uma honra perdida. Isto é assim e ponto final. Por mais vezes que prove uma inocência no futuro, as notícias do passado, por mais falsas e caluniosas que se venham a demonstrar, mancham para sempre a reputação.

Depois de um acontecimento se tornar mediático, ou viral, como agora se diz, os seus protagonistas serão afetados por ele para sempre. Como quase sempre isto acontece com as histórias más, porque “vendem” muito mais que as boas – mais jornais, mais audiências, mais cliques – a sucessão de notícias e desmentidos, transforma-se muitas vezes numa novela pública que acaba por mudar para sempre a vida dos que nela são envolvidos.

O jornalista francês François-Henri de Virieu escreveu, na década de 80 do século passado, um livro com um título que tinha tanto de sugestivo como de profético. Chama-se “Mediacracia”. Nele o autor estudava as características de uma determinada organização da sociedade onde o poder era exercido pelos meios de comunicação (televisão, rádio, Imprensa, Internet…) e não pelas instâncias legitimadas pelo voto dos cidadãos. Uma sociedade onde o sistema mediático se tornava mais forte que o sistema democrático. Era a mediacracia.

Se em Portugal há caso onde o impacto desta mediacracia se compreende por inteiro é olhando para a vida do jornal “O Independente”. Este semanário de Direita, fundado por Luís Nobre Guedes, foi o instrumento quase perfeito para a construção do poder de um dos mais antigos e influentes políticos portugueses ainda em atividade: o atual vice-primeiro-ministro Paulo Portas.

Esta semana, mais propriamente na quinta-feira, dois jornalistas portugueses, o Filipe Santos Costa e a Liliana Valente, lançam um livro sobre o jornal. Chama-se “O Independente – A máquina de triturar políticos” e é uma metáfora sobre a ligação permanente e muitas vezes perigosa entre jornalismo e poder. Aqui reside um dos mistérios mais interessantes da política portuguesa: qual o verdadeiro papel de “O Independente” na ascensão de Paulo Portas ao poder. Ou seja: como é que um ajuramentado jornalista se transformou num irrevogável político à força das manchetes “assassinas” de sexta-feira?

Nos anos de Portas à frente de “O Independente” não havia nenhum ministério que não fosse fonte do jornal. Diz-se que apenas Cavaco Silva, espectador atónito das manchetes sucessivas contra o seu Governo, não partilhava informação com o semanário de Direita.

Diz o senso comum confirmado pela história, que a missão de “O Independente” na sociedade portuguesa era destruir o cavaquismo e criar uma nova Direita. Qualquer destes objetivos foi largamente conseguido.

O cavaquismo desapareceu em dois atos. Primeiro, quando Fernando Nogueira perdeu as legislativas contra Guterres; segundo, quando o próprio Cavaco perde contra Sampaio na primeira vez que correu para a cadeira de Belém. Em consequência, o atual PR estaria quase 10 anos a atravessar desertos.

A Direita portuguesa, representada pelo CDS, um partido conservador e católico liderado por homens como Freitas do Amaral, Lucas Pires, Manuel Monteiro, entre outros – foi também erradicado para sempre do mapa político português. Ao CDS sucede-se assim o PP. O antigo diretor de “O Independente” sai diretamente da Direção do jornal para a ribalta política portuguesa.

Depois de derrubado o cavaquismo, Portas passa a fazer oposição ao Governo do PS. O desaparecimento de Cavaco foi o terreno fértil para a transformação da Direita e o aparecimento do atual Partido Popular. A versatilidade de Portas é inegável. Mesmo depois de “aterrorizar” regularmente algumas das figuras do poder que ajuda a derrubar como jornalista, consegue, na pele de político, ser delas aliado.

Há uma história que é exemplar. No dia 20 de março de 1999, nos alvores da nova AD (que nunca havia de ver a luz do dia) a cidade de Viseu é palco de um comício para as eleições europeias. De mãos dadas, Leonor Beleza, Luís Marques Mendes e Paulo Portas, respetivamente os números 1, 2 e 3 de uma lista de Marcelo Rebelo de Sousa para Bruxelas pedem, unidos, o voto dos portugueses. Era as vítimas do passado, e as do futuro, unidas no mesmo projeto, trituradas pelo mesmo sujeito.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 2 de novembro de 2015