Trogloditas versus Troglogeeks

Zé Manel, estás de parabéns. És um farol para a nação.

Foi ontem à noite que a tua menina-do-bar na discoteca Urban Beach olhou para mim de alto a baixo e, depois de consultar o meu cartão, não me quis servir nem mais uma bebida.

– O seu plafond foi ultrapassado, senhor – Não que eu fosse fugir sem pagar, mas porque o meu limite expectável de consumo estava esgotado. Um tipo com o meu ar só podia gastar até aquele ponto. A partir dali, para beber outra Água das pedras, era preciso acertar contas anteriores.

Tentei saber porquê, mas esbarrei na intransigência da tua menina, gorducha e pintada de fresco, que servia os copos aos clientes. Nem sequer me dirigiu a palavra, nem um olhar, nem um sorriso, nada. Do alto da burra, olhar altivo e distante, seguiu para o cliente seguinte. Um moço muito despenteado com um aspeto não muito agradável.

Foi então que percebi. Era já o espírito do Web Summit a ser posto em prática pelos teus empresários da noite lisboeta. A moça afinal não era mal-educada. Só estava a treinar pela tua cartilha para o grande evento que para a semana vai trazer a Lisboa 55 mil putos ricos, fedorentos, cabeludos e com mau aspeto.

Sei que tens medo que os portugueses não aceitem bem esses ricos moços gadelhudos que vêm a Lisboa beber copos nas tuas tascas até as tantas, e achaste – e muito bem!! – que mais valia prevenir que remediar.

Não fossem os tugas desatar à chapada às dezenas de milhar de pessoas que vão andar a circular pela cidade, “às vezes com um aspeto não muito agradável” (http://bit.ly/2dZ1qGU) , até pediste ajuda ao governo para nos catequisar – Oh! bárbaros lusitanos – antes que que alguma tragédia aconteça.

“Estamos a solicitar às autoridades que não sejam drásticas na visão de que é preciso fechar um estabelecimento porque já é meia-noite” – disseste. Porque “esta gente não tem horários, estas pessoas têm uma realidade virtual e, portanto, nós temos que sentir que somos uma metrópole, que pulsamos 24 horas por dia, ao ritmo da globalização”. E depois pulsaste de novo e disseste: “Quando os virem, sejam como habitualmente. Simpáticos, disponíveis e sorridentes”.

Eu, cabelinho aprumado, casaquinho UOY e bom ar geral, era um indigente. O moço ao meu lado, cabelo desgrenhado e ar de quem não toma banho há muito tempo é que mereceu os sorrisos, o crédito e a atenção da tua agente à paisana.

Zé Manel. Percebi tudo. Sem ti estávamos perdidos.

 

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