POR UM BILHETE DE AVIÃO

Uns bilhetes de avião, imagino que em económica, uns hotéis de 4 estrelas, que nem deviam ter SPA e bons restaurantes, mas sem estrelas Michelin foram fatais: o prato de lentilhas indigesto que atirou borda fora três governantes da Nação. Pindérico ou não?  O orgulho nacional de ver a seleção de camarote e o conforto de viajar numa tournée organizada pelo patrocinador fizeram o resto.

Noutros tempos se ninguém dissesse nada, nada se diria, e a orquestra do bloco central continuaria a arrumar cachecóis da bola sem nenhuma dificuldade. Só que desta vez o bloco em funções não é central, é de Esquerda. E se bem que os parceiros da geringonça se tenham especializado a engolir sapos ainda não conseguem engolir elefantes. É, pois, à conta da Geringonça, que devem ser descontados os governantes que agora saem do governo. Os bilhetes para ir ver a “bola” são apenas um episódio, desta vez visível, da força real que o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda têm no país. É a nova moral vigente a funcionar… Quem a escolheu, agora que a aguente.

Os bilhetes para ir ver a “bola” são apenas um episódio, desta vez visível, da força real que o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda têm no país.

Governantes que viajam a convite de grandes empresas não é à partida falha imoral ou desonra ética, mas viajar a convite de alguém com quem se mantém uma questão de mais de 150 milhões de euros em tribunal torna-se complicado de explicar.

Logo a Galp esclareceu que “é comum” e eticamente aceitável convidar para determinados eventos entidades com que se relaciona, mas como neste caso o género de relacionamento não é pacífico – antes pelo contrário – as coisas não se solucionaram com uma simples justificação.

O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Fernando Rocha Andrade – que trabalhava na tutela direta deste processo – foi um dos governantes que viajou a convite da Galp. Logo se apressou a dizer, em declarações a um jornal que iria reembolsar a petrolífera pela despesa efetuada com as viagens em causa, mas não escapou ao imediato pedido de demissão feito pelo CDS que considerou “reprovável e grave” que o Secretário de Estado tenha viajado a para assistir a jogos da seleção de futebol. Outro SE, desta vez o da Internacionalização, Jorge Costa Oliveira, quando o escândalo chegou aos jornais, também fez o mesmo. Mas era tarde. Inês era morta e a nova moral vigente já tinha feito os seus estragos.

Independentemente do que ganham os membros do governo, e que é muito pouco para a responsabilidade que têm, não podem aceitar convites de empresas que estão em incumprimento com o Estado ou, como era o caso, com quem mantêm disputas em tribunal. Era a mesma coisa se um prisioneiro numa licença precária escolhesse o carcereiro para sair à noite. Além de eticamente questionável é também uma completa falta de juízo.

Sabendo-se que o ordenado de um secretário de estado não chega para essas vidas era muito aconselhável manter o decoro. E entre políticos há muitas diferenças. Marcelo Rebelo de Sousa também foi ver o jogo mas pagou a sua viagem, de avião privado – um Falcon – do seu próprio bolso. Um voo entre Bragança e Lyon, ida e volta, terá custado cerca de 14 mil euros – 3500 euros por hora. Um exemplo que, sendo só para ricos, vindo de onde vem, deixa “os pobres” em sentido. Não que os SE sejam pobres, mas são certamente menos abastados que o PR.

Já Passos Coelho foi mais esperto e precavido. Comprou uma viagem num voo comercial e sentou-se nas bancadas como qualquer outro adepto da seleção das quinas. Acabou por passar por alguém apoia a seleção mesmo quando perde todos os privilégios, a imagem de um homem que está ao lado do povo. Quem diria,

À mulher de César não basta ser séria, também tem que parecer séria. E agora, enquanto a moral vigente for esta, é melhor ainda se for Santa.