Uuuuu-zzzz-u-uuuu

As melgas são bicho de verão! Ou não?

Lá fora enquanto o vento ulula, zune uma melga ao meu ouvido. Quero matá-la mas não consigo. É uma armadilha presa no alçapão do tempo.  Uma metamorfose  da coisa perdida que serve de metáfora ao inverno do primeiro dia.

Trocamos sempre de prazeres quando o vento vira, o do moletom pelo da camisa, o do edredão pelo toque suave, mas agora frio, do algodão do Egito. Amamos até as castanhas e a jeropiga a mudança de hora e a chuva miudinha.

Adoramos viver nos dias curtos onde podemos falar das vidas languidas dos mais compridos. Há mais calor dentro de casa e crépitos na lareira que afagam as memórias dos estios.

Mas se tudo tem seu preço  então eu quero sua contrapartida.

Não vale zunirem ao meu ouvido o inverno e verão em simultâneo. Um em forma de vento e outro em forma de bicho. É como ter apenas as penas e viver sem alegrias.

Mas agora morra a melga ou saia o sol. Chega de ambiguidade.