Verdade ou consequência

Que dizer de um país onde o Presidente da República faz campanha pelo governo, o governo faz leis que são campanha, a floresta arde e não se vê nas notícias e a justiça continua a marcar a agenda nacional. É o verão quente de 2015.

Também não é caso para tanto. Portugal já não vem na capa da revista Time como acontecia há quarenta anos. Nem o porta aviões americano Saratoga está fundeado no Tejo, nem os canhões estão apontados ao castelo de São Jorge, nem o João César Monteiro (que Deus não guarda porque ele não deixaria) faz documentários de capa e espada sobre Nosferatu; já nem a peste que vem de fora desembarca em no Terreiro do Paço sob a forma de rebanhos de ratos infetados pelo capitalismo.

Agora o capitalismo vem todo pelas notícias, pela internet e pelas redes sociais. Já não há ratos nem navios, nem poesia e nem esperança. A espada que pende nas nossas cabeças de povo do sul é a da dívida pública que manda mais que uma esquadrilha de destroyers e contra-torpedeiros. Já não fazemos as notícias porque, bem feitas as contas, já não temos aquela liberdade que pôs a Troika vermelha na capa da Time. Somos agora, depois do massacre grego, à esquerda e à direita do nosso pobre arco do poder, uns mansos cordeiros da cena internacional. Uns yes man uns oui monsieur ou uns ja Mann como se diz em alemão. Em resumo: uns merdas.

Se calhar é por isso, porque só nos resta a coisa interna, que nos destravamos em insanidades quotidianas e somos os bombos da nossa própria corte. Infelizmente a Time já não vem ver e nem sequer o El País de nuestros hermanos se importa com o despautério a que chegou o triste estado da nossa nação. Somo invisíveis na cena internacional. E gostamos de o ser. Não estamos na Expo Milão e na bienal de Veneza estamos poucochinho e não falamos disso. O que os nossos ilustres mais desejam é que o mundo se detenha nas linhas de fronteira entre a foz do Minho e as praias dos algarves. Desde que paguemos a dívida e os juros aos credores internacionais aqui, entre Segura e Peniche, vale tudo.

Cavaco e Silva transformou-se num repetidor do governo. “Estabilidade e maioria. Sem isso tudo está em perdido” reclama o Presidente. Logo ele que governou em minoria, que deu posse a minorias – quando podia não ter dado – vem agora, quando já não tem poder para impor nada, por tudo em causa. Alguém consiga fazer valer que o Presidente da República é um Órgão de Soberania e não um oráculo:.Cabe-lhe promover a estabilidade sobre aquilo que os cidadãos decidam e não condicionar o que os cidadãos venham a decidir. Este Cavaco, tão igual a si próprio, dificilmente ganhará no futuro a projeção internacional que os seus antecessores conseguem.

O Governo entrou em campanha eleitoral de prego a fundo e com cara de pau ilimitada. Inovou mesmo ao Inventar um simulador de hipotética devolução da sobretaxa de IRS (logo apadrinhado pelo PR) que hipoteticamente diz o que os contribuintes podem vir hipoteticamente a receber “se” as receitas dos impostos continuarem a subir. O que só se saberá hipoteticamente depois das eleições.

Ao contrário de outros anos em que os incêndios florestais fizeram furor no prime time das televisões, este ano, em que o numero de fogos está a acima da média na última década, os incêndios estão fora das notícias. Proporcionalmente a floresta em Portugal é a maior da Europa – 35% do nosso território. Esta riqueza, ignorada há anos, esfuma-se definitivamente das nossas preocupações coletivas. São as novas contas da proteção civil ou apenas o desinvestimento nacional?

Por último (com lugar emérito) a justiça. Corporativa e aparentemente inimputável continua a marcar a agenda nacional comunicando exclusivamente através da violação do segredo de justiça. Ninguém fala, ninguém diz nada e tudo aparece escrito e escancarado nas notícias de alguns jornais. A justiça é a instituição que em Portugal menos regras cumpre e que ninguém fiscaliza.

O Episódio Ricardo Salgado vem confirmar, pela milionésima vez, apenas o que é óbvio neste momento histórico: num país endividado e gerido sem rasgo, brilho ou competência são as corporações que ninguém escrutina os novos donos disto tudo.

É a verdade e a sua consequência.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 27 de julho de 2015