O vício de fumar

Fumar ou não fumar

Porque é que fumamos? Porque nos envenenamos lentamente sem pensar na qualidade da nossa vida futura. Será que os viciados não sabem ler nem têm imaginação? Será que são tão burros que precisam que lhes façam desenhos para compreender o óbvio? E que nem mesmo assim funciona. É assim o vício de fumar.

Um dia destes os maços de cigarros vão ter imagens de horror. Vão mostrar na caixa o que o tabaco faz ao corpo. Gangrena, putrefação, deformações monstruosas, crianças aleijadas. Vão mostrar como nos podemos transformar no Homem Elefante ou no Frankenstein. Essas imagens horríveis vão substituir as frases do costume, “Fumar mata”, “Fumar causa impotência”, “Fumar prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam”, entre outras. Os novos rótulos vão mostrar, mesmo a quem não sabe ler o inferno que é o vício. Mas quase todos os que fumam sabem ler. Então porque será?

Este comportamento estúpido, que pode custar um sofrimento sem fim aos fumadores no final das suas vidas e vários milhões de euros anuais ao sistema nacional de saúde, prende-se com uma das mais intrínsecas características do ser humano: um insensato sentimento de imortalidade. Até que um susto sério nos atinja, todos acreditamos profundamente que nunca vamos morrer.  Há em todos nós uma irracional sensação de impunidade, que nos sussurra ao ouvido dizendo que a morte é apenas para os outros.

Mas na verdade esta atitude não é assim tão estranha. Está relacionada com o comportamento naturalmente hedonista (amante do prazer) do ser humano, que prefere nunca deixar para amanhã o prazer que pode ter hoje. Uma espécie de adaptação da teoria económica da antecipação do capital aplicada aos vícios. Podia ser enunciado assim: “O prazer, como o dinheiro, é melhor hoje que amanhã”.

Isto acontece, ao longo da vida, por vários motivos. Primeiro nos alvores da juventude, pela vontade de viver; depois, na a idade adulta com a vontade de pertencer a uma certa conceção da sociedade onde nos inserimos; por último, mais perto do fim da vida, por medo da morte. Por medo de não termos mais tempo para o prazer.

Esta aparente contradição, apenas aparente, explica com muita exatidão porque praticamos os vícios socialmente aceites, como fumar e beber, sabendo que nos fazem mal à saúde e põem em risco a qualidade de vida que podemos ter nos anos seguintes. Mas não se aflijam. Mesmo sendo mau, é apenas humano.

A questão de fundo é simples. Tem a ver com o género de prazer que nos enche as medidas a cada altura das nossas vidas e como somos capazes de transformar as necessidades com o passar do tempo.

Sei que fumar é ótimo e beber fantástico, mas acreditem, correr, passear na rua, ler livros, ouvir música e estar com os amigos são coisas que nunca envelhecem e podem ser bons companheiro até ao fim.

Se pensarmos bem até ser bons vícios. Bem melhores que o vício de fumar