Viva a Ana Isabel da loja do cidadão de Coimbra

Foi na Loja do Cidadão de Coimbra que esta crónica aconteceu.

Passar a vida a dizer mal de tudo é uma das formas mais comuns com que se investem os colunistas de jornal.
O que nem sequer é muito estranho porque, como habitualmente as coisas correm bem, ninguém se lembra de falar do que é normal. O que acontece sempre. A não ser quando o normal ganha contornos de extraordinário. Mas isso é o Éder a marcar um gola à França ao cantar do galo, o Guterres ganhar as Nações Unidas à primeira ou o Centeno ser escolhido sem espinhas para o Eurogrupo. Vendo bem, tudo coisas boas e raras.

Mas quanto ao resto, népia. As coisas normais não merecem a atenção dos distintos (e distintas) escribas e comentadores que entopem páginas e antenas.

Hoje aproveito o espaço destas linhas para fazer justiça aos heróis silenciosos (neste caso uma heroína) cujos feitos raramente são cantados na palavra pública.

A ação passa-se num sítio insuspeito para grandes façanhas heróicas, na loja do cidadão de Coimbra, numa tarde destas, fria e escura logo cedo ainda o almoço vai mal digerido e não chegou a hora do lanche. Os trabalhos em questão também não são nada de extraordinário mas, mesmo assim, sabe Deus por quantas vezes se complicam.

Neste templo de formalidades, quantas vezes as homilias são apócrifa, cheias de credos e sem redenção anunciada? Muitas não é. Mas desta vez não acontece assim.

Enquanto o diabo esfrega um olho, contador de água e passaporte fizeram-se à velocidade da criação. Nem foram precisos seis dias, nem seis horas. Em trinta minutos o freguês estava despachado, satisfeito e apaparicado com sorrisos.
Em vez de uma penitência foi uma sorte. Em vez de uma via sacra um passeio de domingo.

Entre o tempo de chegada e a hora da partida os momentos que passei na loja do vocação foram de irreprimível orgulho pela minha cidade, pelo simplex mas sobretudo por todas aquelas pessoas que tão bem fazem o seu trabalho. Calem-se desta vez os velhos do Restelo, juntem-se a mim e às ninfas do Mondego e agradeçamos juntos tanta civilização.

Gostei de lá ir. Estão todos de parabéns. Entrego-os simbolicamente a uma menina que, com um imenso sorriso, me fez as contas do dia.

Viva a Ana Isabel. Viva.

 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra, dia 6 de Dezembro de 2017