Volta Santana Lopes, estás perdoado!

santana a voltar numa noite de nevoeiro

Desengane-se o leitor: um político é sempre um político. Por mais que ele seja outras coisas – gestor de Misericórdias, comentador de televisão ou presidente do Sporting – um político nunca deixa de o ser. Um político profissional nunca se reforma antes do tempo. Para eles, o chamamento do poder é sempre maior que a vida.
Se acredita que Pedro Santana Lopes vai acabar os seus dias públicos a fazer o bem aos necessitados, é melhor mudar de ideias. O antigo “Enfant Terrible” do PSD transformou-se num Príncipe Perfeito e é agora, para a maioria dos militantes de base do PSD, uma espécie de Dom Sebastião da São Caetano à Lapa.
Quando chegar o dia de nevoeiro – a manhã seguinte as próximas eleições autárquicas – Sebastião, perdão, Santana, desembarcará na cena política nacional reclamando o que é seu por direito natural: a herança de Sá Carneiro. Por desnorte de Santana Lopes e pela falta de dimensão política de Rui Rio.
O momento é perfeito. Na semana mais negra para Passos Coelho, Santana Lopes desdobra-se em contactos e entrevistas  e coloca-se no topo da atualidade. Fala de eleições autárquicas quando, no PSD, o assunto é um elefante na sala. Sabe que o seu partido não vai conseguir apresentar um candidato credível e não resiste a carregar com o dedo na ferida.
Atravessou o deserto necessário depois do seu polémico afastamento de primeiro ministro em 2004 e, como provedor da Santa Casa da Misericórdia, transformou-se um senador. Hoje, genuinamente, ninguém acredita – talvez com a exceção de Jorge Sampaio  – que Santana Lopes seja a mesma pessoa que era há 13 anos.
Numa altura em que o partido está completamente à deriva, sem estratégia, sem escopo ideológico e a perder terreno para o CDS de Assunção Cristas, os laranjas começam a olhar para o antigo Enfant Terrible como o seu salvador.
Pedro continua a ser amado pelos militantes de base do partido e os barões – se ainda os há –não estão em posição de negociar. As alternativas à sucessão são fracas e até Rui Rio, comparado com Santana Lopes, é um mar menor.
Se for esse o seu desejo, no próximo congresso do PSD, Santana Lopes será aclamado em apoteose, até porque em política não há narrativa mais doce que a do regresso de um filho pródigo.

 

Publicado originalmente no Jornal de Notícias