A confiança ainda é o que era

Com o tempo conseguimos rapidamente perceber a verdadeira natureza das pessoas. Sem ser preciso muito convívio nem investigações muito profundas.

Para saber o que realmente interessa sobre alguém chegam 5 minutos. Neles, o timbre da voz, o desenho dos movimentos, a expressão do olhar e um qualquer toque fortuito dizem muito do que interessa saber sobre cada pessoa nova que se cruza na nossa vida.

E como estes dias têm sido férteis em gente nova! O mundo entrou de novo em ebulição depois da clausura pandémica e um frenesi inusitado está instalado nas ruas das cidades e nas artérias da gente.

Aqui e em todo o mundo. Tudo o que nem se mexia ganhou movimento. Tudo o que mal se mexia, agora dança; e o que lento andava parece animado de uma tal juventude que não lhe falta ambição para nada.

Até parece que a vacina relâmpago com que nos inoculamos todos — não é só um placebo mais ou menos útil consoante as mutações que coagem o vírus — ela também funciona como uma espécie de droga inovadora que nos faz quer experimentar novas sensações.

Tripar novas viagens, alucinar novas alegrias, conhecer novos mundos; como se por algum motivo pudéssemos todos ter nascido outra vez.

O tempo de paragem fez-nos olhar com desconfiança para o futuro, mas como tínhamos medo dele — do futuro — vivíamos quietos, sem lhe dizer nada.

Até que tudo mudou e os nossos olhos já não desconfiam do tempo que chega, antes o desejam com tanta força que a todos nos parece pouco. Não há tempo a perder. Não podemos esperar para conhecer. Para tocar, para olhar, para abraçar e sorrir. Temos todos de fazer, de correr, de ir.

Ao mesmo tempo agora que a vida regressa ao normal, apercebemo-nos que em muitas coisas ela não é mais a mesma; que no intervalo em que ficamos em casa, apreendendo a conviver uns com os outros através de ecrãs, algumas coisas mudaram, mas o que é essencial a nossa humana natureza continua imutável.

Hoje sabemos que é possível conhecer bem uma pessoa sem nunca a termos visto; sabemos que assistir a um seminário virtual é mais cómodo e pode até ser mais produtivo que viajar meio mundo para assistir a uma conferencia internacional. Até sabemos que é possível fazer mais coisas que antes no mesmo tempo e sem sair do lugar.

Apenas uma coisa não conseguimos mudar, essa que logo nos atira para os braços uns dos outros. Aprendemos a conhecer-nos ao longe, mas para confiar e decidir continua a ser preciso estar perto. Olhos nos olhos. Como dantes.