O dilema de Bruna

A minha amiga Bruna, brasileira, paulista, carioca por trabalho, tem um dilema: explicar a si própria porque apoia Bolsonaro. Até me disse que se eu continuar a dizer mal dele— coisa que pratico com abundância na minha coluna semanal na revista brasileira IstoÉ — um dia destes não me deixam entrar no Brasil. Respondo-lhe que está enganada, que o Brasil é muito maior que isso, que eu às vezes até digo bem das políticas dele e que, na terra do Redentor, a liberdade de imprensa é maior que em Portugal. 

Mas quer gostemos quer não, Bolsonaro faz o que tem de fazer para ganhar as eleições em 2022: Comportar-se como a besta quadrada que os seus eleitores amam. Por isso compreendo o dilema de Bruna — Tem a sorte de pertencer à elite, de ter sido educada em escolas privadas, frequentadas maioritariamente por brancos endinheirados de matriz católica e ter uma vida profissional ligada à elite dos negócios — e apesar disso nada mais lhe resta que defender Bolsonaro. 

“Se não o podes vencer junta-se a ele” — é de novo — à medida que se torna inevitável a sua reeleição, a palavra de ordem da elite.  Isso é grave porque esta elite, a que Bruna pertence, perdeu o comboio do futuro quando se esqueceu de produzir políticos viáveis, capazes de conduzir o Brasil ao progresso no mundo globalizado, longe da corrupção provinciana da esquerda e do populismo fascistoide de direita.  E foi assim que essa elite deixou o território livre para a vitória de um discurso básico, simplório, maniqueísta, evangélico, radical e dirigido ao coração de bestas quadradas. É nesta falta de comparência que se explica o dilema de Bruna. Que consiste no infortúnio secular que faz do grande Brasil uma potência adiada e o país “eternamente” do futuro.