O novo normal

O novo normal é anormal? Ou é apenas diferente? O novo normal é só a nova vida da gente. Mas como é que a gente se vai habituar; será que a gente vai gostar? Ao princípio não! Vamos detestar, mas depois vamos ver que há coisas boas. Conhecer o novo normal é assim como beber uma coca-cola pela primeira vez, estranha-se e logo se entranha — quer o sabor quer o gaz.
Vejamos as coisas más, que as más notícias se dão sempre primeiro. É mau o distanciamento social. Abraços e beijos é das melhores coisas que a vida tem. Vamos ter que escolher melhor. Abraçar e beijar vai ser um sinal de confiança e não só um mero cumprimento. Vamos viajar menos, conhecer menos lugares, sentir menos cheiros e ver menos horizontes. Vamos assistir a menos espetáculos e ir a menos shows e teatros. Vamos jantar fora menos vezes e os restaurantes vão ser mais caros. Serão alturas de celebração e não atividades de todos os dias. As repartições públicas vão ser tempo e ser atendido vai demorar mais tempo.
Mas também há coisas boas. É bom para as palavras que ganham um novo poder. Não vai ser mais preciso apertar a mão para fechar um contrato. Basta dizer: está fechado. Vamos ficar mais tempo em casa dando atenção aos nossos filhos, vê-los crescer com mais atenção. Aprender com eles. Vamos ficar mais próximos das nossas estrelas de TV e artistas favoritos, vão falar connosco pelas redes sociais, quase ser nossos amigos. Vamos estar todos mais perto apesar do afastamento. Os restaurantes vão ter mais espaço entre mesas e a comida vai ser melhor. Ir ao restaurante será uma memória para guardar.
Quando eu era pequeno, na minha terra, uma pequena cidade em Portugal, perto da fronteira com a Espanha, chamada Castelo Branco, as coisas já eram exatamente assim como vão ser. E eu pensava que eram muito boas. Depois as coisas estragaram-se um bocado e o progresso chegou com muita velocidade, atirando a pressa para cima de tudo e nos deixando mais nervosos. Em muitos lugares as coisas ainda são assim.
O novo normal não vai ser anormal. Vais ser apenas diferente. Vamos continuar a expressar os nossos sentimentos, a fazer os nossos trabalhos, mas temos uma grande oportunidade para melhorar a sociedade.
A pandemia obriga-nos a pensar no futuro com mais cuidado. Provavelmente pela primeira vez, muitos de nós vamos medir o alcance das nossas atitudes em relação aos outros. E mesmo que ao princípio seja apenas por medo individual, acabaremos juntos por ser melhores.
O novo normal até pode ser bom!