A mulher que voa

Nunca suspeitei, na primeira vez que te vi, que pudesse existir em ti qualquer coisa que me roubasse ao tempo e me tirasse do sério. Mas a falta de fé é sempre um erro que se paga caro.

Primeiro, porque dizias que me achavas bonito — e por isso me deslizaste para a direita no altar dos encontros — e nunca ninguém me achava bonito. Só isso constituiria suficiente razão para me preocupar, mas nem a procissão ia no adro. 

A seguir falavas de uma série de qualidades que consideravas importantes, mas que verdadeiramente se assemelhavam mais a etiquetas de roupa de marca ou aos atributos de um qualquer perfume internacional com vontade de ser caro — Beach, Pshycology, Compassion, Philosophy, Afection — mas também não foi por isso que a minha atenção se colou mais a ti. 

O que há em ti de único, que me toma o tempo e me desata a escrita, é outra coisa. 

Mais à frente, rematando o teu epíteto digital, afirmavas perentoriamente que toda a importância do teu tamanho — que era grande e não dispensava suporte apropriado — tinha o seu auge na ponta dos pés. Sabias que nada pode ser mais bonito que um sapato, porque os pés são o suporte exato da beleza e precisam do melhor cofre do mundo. Afinal é nos pés que Hermes e Mercúrio usam as asas da imortalidade. Já vou de maneira que tudo me parece um sonho, mas não é só divina a razão do meu encantamento.

Também não foi porque me disseste que não acreditavas na sorte, mas apenas no suor. Nem em coincidências — como esta em que nos encontramos — que para ti não existem. O que há em ti de único, que me toma o tempo e me desata a escrita, é outra coisa. 

Ainda pensei que era alguém, por me saber insatisfeito de amores, desacreditante em corações que ainda podiam bater a ensaiar uma vingança serôdia à moda de Almada — Hei-de ser a mulher que tu queres, hei-de ser ela, e não te hei-de dar atenção —  mas também não era disso. 

Senti de novo o prazer que o corpo veste na véspera do voo das borboletas quando, depois de acordares, me falaste no dia seguinte. 

Bom dia José — tinhas um brilho declarado nos olhos quando as palavras me chegaram — Saudações africanas para ti. Talvez o que procures seja uma espécie de Musa, tal como o Dali tinha, ou mesmo outros artistas. 

Foi com Accra nos teus olhos que respondi — Perguntas o que procuro. Sei exatamente o que procuro. Procuro o que não tenho. Procuro o amor.

O amor é esse porto. Encontra-se de várias formas, às vezes no topo gelado de uma montanha em plena solidão, outras nas páginas mil vezes lidas de livro antigo descoberto por acaso, outras vezes no meio da praça do tempo na porta no novo mundo, outras ainda contemplando o discurso na pedra do pai que fundou a terra da liberdade. Outras vezes – essas muito mais raras —no simples olhar de uma pessoa.

Mas o que verdadeiramente me trouxe ao céu nesta viagem foram os nomes inesperados que escolheste (e te escolheram) para te designar. Caí redondo porque eras Isa e depois Zara e no meio Carina, e essas eram todas as mulheres da minha vida. 

Um arrepio substituiu-me no ventre o marulhar das borboletas e de imediato senti de novo o desejo perto.

A ti, nem te faltava voar.