TP 1028

Havia de haver uma maneira de me encaixar no relógio da tua vida dia. Tinhas aparecido atrás do carrinho das sandes, na barriga do pássaro de aço, no dia em que fui a Madrid encontrar o meu filho por causa do futuro. Já estávamos a voar na primeira vez que te vi. 

Lembro-me tão perfeitamente dos contornos do teu rosto nessa primeira imagem que, será para sempre — não importa o tempo que passe — mais nítida que uma fotografia a cores e alta resolução

As vírgulas das tuas sobrancelhas, pontuavam as letras dos teus olhos como se fossem respiros de escritor. Se o Saramago te tivesse conhecido nunca mais olharia para um ponto final da mesma maneira. O teu rosto, um círculo perfeito, metáfora de círculo e sinédoque de perfeição. Figura de todos os estilos e incomparável emoção. 

A altivez de quem voa sempre permite olhar o perto como se fosse longe e o longe como se fosse uma miragem.

Devíamos estar voar algures uns tantos quilómetros mesmo por cima da terra onde nasci — Castelo Branco, junto à fronteira com Espanha — no traçado perfeito da rota do TP 1028, que todos os dias mandava os tugas à castilha à procura de ver uma imagem maior do mundo, mesmo ali ao lado, quando o teu rosto de musa desaproveitada se cravou em mim vindo no nada. 

Foi nessa viagem – as ironias escrevem-se realmente de qualquer maneira — que, sem eu sequer desconfiar, a minha vida acabaria por mudar para sempre, embora eu só viesse a sabê-lo, uns meses mais tarde, quando te vi por acaso numa janela digital e me lembrei do teu nome. 

Também tropeçaste em mim (apenas os teus olhos, que as assistentes de bordo nunca tropeçam) mas não me disseste. A altivez de quem voa sempre permite olhar o perto como se fosse longe e o longe como se fosse uma miragem. Foi no teu olhar que aprendi a definição de elegância. 

Trocamos duas palavras na tua chegada. Não resisti e quebrei o protocolo secular das regras do amor, que te a aconselha a nunca te apaixonares por uma mulher que voa a não ser que te comprometas também a aprender a voar — e perguntei o teu nome. Levantaste o olhar e respondeste baixinho — quase soletrando. Guardei as palavras que me deste como se fossem um autografo do Pessoa ou um ingresso para o último concerto do Sinatra, na certeza que um dia te voltaria a encontrar.

Fechei os olhos para saborear o momento quando, já na cauda do pássaro, a tua voz de novata anunciou na eletricidade da gaiola — apertem os cintos, levantem as mesas e endireitem as cadeiras. Vamos aterrar.

Foi a última vez que te vi até te encontrar para sempre umas semanas mais tarde quando, numa noite de insónia, soletrei o teu nome na linha de busca do maior país do mundo. O Facebook devolveu-me a tua imagem. 

Escrevi soando — Knock Knock — e tu respondeste. 

– Olá Sr. Diogo. Não percebi bem o que fazes, és escritor?