UMA BELA ADORMECIDA DISTÓPICA

Utopia

Uma fotografia utópica provoca uma reação distópica. Está decidido que Madrid será destino da minha liberdade. Obrigado Ruth por deixares as tuas palavras encontrarem esta fotografia.

UMA BELA ADORMECIDA DISTÓPICA

por Ruth del Pozo

Uma das coisas que me surpreendeu durante este confinamento foi a facilidade com que encontramos semelhanças com a situação que estamos a viver.

Em muitos casos, são utilizadas metáforas de guerra. Não há dia em que alguém fale em combater, derrotar ou acabar com o vírus. É uma questão de dar forma a um inimigo invisível que, infelizmente, nos colocou a todos do mesmo lado, sem armas e acusando-nos de um grande número de baixas. Não, não é uma luta em condições de igualdade, mas, se me é permitido comparar, esta maldita doença vai ganhar muitas batalhas, mas não vamos deixar que ela vença a guerra.

Há também a ideia recorrente de “hibernação”. A economia foi posta em hibernação e o mesmo aconteceu com as nossas vidas. Tenho de admitir que esta ideia, que se assemelha a um urso que entra na caverna durante o Inverno à espera da Primavera, me parece infeliz. O urso dorme durante a estação fria, acordando para o calor, para a vida. Infelizmente, a nossa Primavera está longe de ser idílica. A economia não vai acordar para uma Primavera cheia de vida, mas sim para um deserto desperdiçado e estéril que vai ser difícil de encher com novos rebentos e, no caso das nossas vidas, o que dizer… muitos dos ursos não voltarão a sair da gruta.

Outra comparação que li no outro dia, foi a da história da Bela Adormecida, parecida com esta paragem ao sono profundo em que tanto o protagonista da história como os habitantes do seu reino foram mergulhados após uma maldição. Um sonho de 100 anos… Não sei se chegaremos aos 100 dias de sono, só sei que em muitos casos o sono é apenas um pesadelo, que quando acordarmos não seremos os mesmos e, mais uma vez, descobriremos que muitos terão afundado no sono eterno.

Para mim, se tiver de escolher uma história, fico com a do Rapunzel. No final, encontro conforto no pensamento de que uma bruxa má chamada COVID-19 me prendeu por um período de tempo indeterminado, com ciúmes da boa vida que possuía. Poderia até ser poético se não fosse o facto de a minha “torre” não ignorar uma floresta verdejante, mas um bairro operário na periferia de Madrid. Desta paisagem urbana feia, só posso esperar que um príncipe ou princesa, que ultimamente se tornou muito aberto de espírito, venha salvar-me, brandindo nas suas mãos uma vacina novinha em folha que me libertará do confinamento. A única coisa boa da situação, e para pôr algum humor neste horrível conto distópico, é que não terei de esperar pela sua bela e luminosa chegada como heroína da Disney. Afinal de contas, neste final feliz desejado, ambos usaremos máscaras.

Ruth del Pozo

Versão original em Castelhano AQUI